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QUEM SE IMPORTA SE VOCÊ FOI DEMITIDO?

Eu fui demitido.

Esta parece ser a grande barreira intransponível, a grande pedra no meio do caminho.

Entre os empregados, aparentemente nunca, nenhum, esteve desempregado.

Entre os desempregados, todos pediram as contas.

O mais próximo que chegamos de colocar os pingos nestes “is” é dizer: estavam fazendo cortes.

Vivemos numa realidade tão distorcida, num tal mundo de aparências, virtualidades e irrealidades, que nem vemos mais o que é verdade. A verdade deixou, simplesmente, de importar. O que importa é o que “os outros” pensam, não o que você é.

Ah, e tudo o que “os outros” podem pensar se souberem que você foi demitido.

Ser demitido, nesse jogo perverso em que nos inserimos, seria o equivalente a um suicídio profissional: após a demissão, não haveria mais carreira, profissional, honra, respeito, oportunidades. Artigos e mais artigos tratam e destrincham a delicada pergunta feita ao demitido em uma entrevista de emprego: “por que você saiu da última empresa?”.

Quais as melhores respostas? Como mencionar a guerra de braços com o chefe? O que falar do ambiente nocivo? Quando parar? O que falar de si mesmo?

Todo um jogo para tentar resgatar – na ótica atual – o que um demitido perdeu lá atrás: o valor.

Portanto, alguém escrever em alto e bom som – como eu – que foi demitido do último emprego: suicídio duplo?

É possível. Porém, cerca de 1 ano após este texto, continuo achando este o momento mais libertador de todo este sabático. Admitir que tinha sido demitida, que meus grandes planos de carreira tinham encontrado uma porta fechada, foi parte importante do processo de redefinição de mim mesma. Do que eu quero para mim – do que quero para os ao redor de mim e para o mundo.

Porém, não é o que mais vejo.

Recentemente, dois ex-colegas foram demitidos. Pude ver claramente que o movimento foi esse, pela forma como conversaram comigo, ansiosos, querendo se recolocar (nada da calma, contemplação e possibilidades que me parecem os sentimentos mais adequados para esta dádiva de tempo em mãos). Não perguntei, mas os dois estavam também ávidos por me explicar porque estavam desempregados, e a crise ganhou duas novas consequências.

Ambos circundaram a palavra “demitido” sem nunca mencioná-la. Vai que perdem um pouco mais do valor que ficou lá atrás, comigo. Como, para mim, nada disso importa, não fomos à verificação de fatos – aquele rol de perguntas intrometidas que amigos enxeridos usam para esmiuçar vida alheia.

Contudo, fiquei observando.

Pergunto a você: quem alimenta este jogo? A quem serve que dois inteligentes e vibrantes profissionais apareçam na minha frente com um pouco menos de brilho? Um pouco menos de cor? Sentindo-se acovardados porque em determinado momento um ser supremo decidiu que eles não deveriam mais fazer parte da empresa XPTO?

Por que nossa cultura transforma demitidos em sub-profissionais?

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Balanço em um dos mirantes da volta de Mae Hong Son, na Tailândia

Se você já passou do terceiro emprego, sabe muito bem que a sua permanência em cada um deles nunca dependeu única e exclusivamente de você, ou do seu talento. Com um pouco de maturidade – e experiência – você também sabe que seus talentos foram melhores empregados em uma destas empresas. Que você se encaixou melhor em uma delas.

Ora, é coisa óbvia: o trabalho, como vivemos na sociedade atual, é resultado de esforço coletivo de aproximação. Trabalhamos, quase sempre, em grupos. E quem já foi à escola, sabe que há grupos que funcionam, outros não. Isso depende do indivíduo, mas também do conjunto de indivíduos. Isso depende do indivíduo, do conjunto de indivíduos e da liderança da escola (professores, diretores, pedagogos, etc).

Ou seja: ser “expulso” da escola, é tanto uma demonstração da má adequação do indivíduo com o conjunto, quanto do conjunto com o indivíduo.

Quando falamos então de empresas, onde a inserção do indivíduo no conjunto segue o famigerado “processo seletivo”, fica ainda mais evidente que a má adequação é de mão dupla. A empresa, sabendo de sua cultura, suas necessidades, seus líderes, seus valores, busca no mercado um profissional que lhe atenda – e se o profissional é depois demitido, convenhamos, a falha deste processo seletivo é evidente.

(Sobretudo evidente quando a demissão se dá no primeiro ano da admissão.)

Porém, veja. Se a demissão é um processo que fala tanto da má adequação do indivíduo para com a empresa, quanto da empresa para com o indivíduo: por que a pecha de sub-profissional é apenas do empregado?

É claro que isso tem apenas uma razão – desvalorizar o mercado. Na próxima entrevista, se o profissional estiver desempregado e – devastação do Egito pelas 7 pragas – tiver sido demitido do seu último emprego, bingo!

O braço forte na negociação de salários será da empresa.

Será mesmo?

Quando você lê isso, sente-se bem?

Acaso eu fosse uma neurocirurgiã que tivesse inventado uma técnica revolucionária de tratar cânceres do cerebelo, e tivesse curado mais de 1000 pacientes, meu valor como profissional seria menor porque fui demitida do meu último emprego?

Claro que não! Pouco importa: se eu fui demitida, se pedi demissão – o que importa é que estou livre para trabalhar aqui no seu hospital. Quer, quer. Se não quer, tchau.

A questão toda é que somos programados desde muito cedo para conseguir “o emprego dos sonhos” e “seguir carreira numa multinacional”. Sentamos nas classes de engenharia debulhando equações diferenciais para “nos destacarmos no mercado de trabalho”. Precisamos muito de “um emprego para pagar as contas”.

Eu comecei a me dar conta dessas coisas apenas após ter sido demitida. Apenas depois de encher meu balde de paciência até o limite da exaustão, e jogar toda aquela água pela janela (figurativamente, colegas, não molhei nenhum vizinho!), é que vi quão programada havia sido.

Milhares de produtos são desenvolvidos todos os anos nas Universidades por alunos que apresentam seus trabalhos em simpósios e congressos e isso. Nada acontece. Há trilhões de formulações e protótipos prontos, parados nas bancadas dos cursos de engenharia, esperando que algum aluno finalmente reconheça que nenhuma empresa virá lá comprar aquele produto.

Esperando aquele um aluno que coloque a cabeça fora d’água e entenda que ele próprio fez aquilo com suas mãos e ele próprio pode levar aquilo adiante. Que ele próprio não depende de ninguém. Que o valor está dentro dele próprio.

Se não fôssemos tão programados, tão preparados para colocar nas mãos dos outros o comando das nossas carreiras e do nosso sucesso, talvez eu nem estivesse escrevendo aqui este texto sobre ser demitido. Seria irrelevante esta conversa num mundo onde cada um expressa o seu talento de forma individual, ou coletiva quando lhe convém, e individual novamente se volta a calhar.

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Mas é neste mundo que vivemos, e neste mundo pessoas são demitidas todos os dias. Seu pai, sua mãe, seu avô, seu marido, sua melhor amiga, sua filha, todos foram ou serão demitidos em algum ponto. E O QUE IMPORTA?

Importa para QUEM se você foi ou não demitido do último emprego? Importa apenas que você está pronto para outra, oras (ou que está se preparando para estar pronto)! Por que então um Gerente de RH me disse há alguns anos: “é muito importante saber se uma pessoa foi demitida ou se pediu demissão”.

NÃO É!

Parem de agir como “amigos abelhudos”. O papel do RH é buscar adequação entre o profissional e a empresa, entre a empresa e o profissional, e não ficar levantando abelhices e mesquinharias sobre a vida alheia.

Alguns dos melhores profissionais que já trabalharam comigo tinham vindo JUSTAMENTE de uma demissão, e ainda se puniam diariamente por isso, mesmo novamente empregados. O que este autoflagelo lhes trazia? Apenas dor e atraso – todo o brilho que poderia estar por ali desaparecido porque alguém lhes havia enfiado à cabeça que eram menos porque haviam sido demitidos.

Pois bem: trabalhar em conjunto é maravilhoso e, na empresa certa, realmente uma carreira pode deslanchar e atingir seu ápice. É claro que existem dezenas de benefícios em usar do conforto, projeção e estrutura de uma empresa para se desenvolver profissionalmente. Se o caminho da carreira corporativa não fosse bom, ele não atrairia tantas pessoas.

Por outro lado, a carreira corporativa está longe de ser a única carreira possível. Há inúmeras possibilidades lá fora, inclusive as que você mesmo pode criar. Dizem que as corporações dominam o mundo, mas isso somente é verdade se você deixar. Principalmente, as corporações só dominam você se você deixar.

E o único que pode definir o seu valor. Bem. É você mesmo.

 

Ah, e para as empresas que continuam a demitir sem escrúpulos, que contratam e demitem na mesma taxa com que desconhecem suas próprias necessidades, um pequena alerta. O mundo está mudando. Demitir e ganhar bônus….

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7 comentários sobre “QUEM SE IMPORTA SE VOCÊ FOI DEMITIDO?

  1. Admiro tua determinação e tua persistência em ficar mais junto a tua família e a ver o desenvolvimento e crescimento dessa menina linda que é tua filha, que amo muito. Parabéns pela tua posição frente a tudo que te cerca e fazendo do negativo uma coisa positiva. Beijos

  2. Nossa Cristina, confesso que fiquei emocionada ao ler o post, fui demitida a seis anos atrás e ainda hoje tenho momentos de “auto flagelo”, e repito para mim mesma fui demitida porque escolhi fazer o que era certo, e não me arrependo foi um aprendizado, parabéns pela sua sabedoria e reflexão sobre o assunto, e principalmente por compartilhar conosco!!!! Abraços

  3. Cris, adorei o texto! E realmente, pq uma demissão significa que o indivíduo não era adequado à empresa e não que a empresa não estava adequada àquela pessoa?!
    Ser demitido não precisa significar que você não é um bom profissional, e sim que suas habilidades não foram aproveitadas de maneira adequada naquela função!

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