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FLORES DA CUNHA: VINÍCOLA E FESTA ITALIANA COMO DEVEM SER

Todo nós temos nossas idealizações de viagem. Pensamos que um determinado destino será romântico, glamoroso, aventureiro, rústico – e muitas vemos nos deparamos com experiências pasteurizadas, lixo por todos os lados, sentimento de sermos tratados como manada e não como pessoas únicas e especiais (que é como nos vemos e gostamos de ser vistos kkk). Eu tenho as minhas idealizações também, mas como sou macaca velha, dou uma pesquisada antes de sentar no assento do avião para não cair em roubadas (do meu sonho).

Por coisas assim, nem me aventurei em Koh Phi Phi. Sim, é possível ver a ilha mais conhecida da Tailândia sem o trilhão de pessoas que a abarrota todos os dias – mas isso custa caro, e impede que você largarteie na areia a tarde inteira. Ficar algumas horas no raiar do dia por ali e depois partir em direção às demais praias impede que eu brinque de milionário no paraíso. Trocamos, na Tailândia, Koh Phi Phi por Koh Rok (e fomos muito felizes na escolha!).

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Koh Rok, na Tailândia. Paraíso deserto.

Bem, mas somos humanos. Por mais escolados que sejamos, temos nossas falhas – também não dá para pesquisar tudo, prevenir tudo. E eu tenho que admitir, minha falha sempre reside no quesito comida.

Italiana, então. Sou um peixe morto pela boca.

Alguém me convida para uma festa italiana e eu já começo a salivar: polenta brustolada, vinho à vontade correndo pelas mesas, galetinho, música, gente gritando, criançada brincando por todos os lados, tanta massa e queijão parmesão que nem cabe na barriga. Bandeirinhas verdes, brancas e vermelhas para decorar tudo aqui, e muita, muita dança típica.

É, eu sou uma idealizadora de Festas Italianas. (pode falar aí que eu crio muitas expectativas. É isso mesmo).

Então você imagina a minha decepção quando fui pela primeira vez à Festa Italiana de Jundiaí, com aqueles plásticos de propaganda de banco cobrindo as mesas, com o molho de tomate comprado no supermercado, com a comida sendo jogada em pratos plásticos e nada, nada do clima “festa italiana” que eu havia previsto. Para uma cidade que se orgulha da colonização italiana, foi uma das maiores decepções da minha vida. Não preciso dizer que fui uma vez em 8 anos que morei por lá – nunca mais voltei.

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A entrada secundária de Flores da Cunha. O que plantar nos canteiros centrais? PARREIRAS, é claro!

Cheguei a tratar do assunto com o meu professor de inglês à época, um americano, que nutria a mesma objeção à versão jundiaiense da coisa. Faltava alma. Faltava aquele quê de orgulho de ser italiano e de ter a melhor culinária da face da Terra. Faltava queijo, e massa fresca, e vinho, e decoração bonita, e sentimento de comunidade por ali.

Ir a esta festa meio que arruinou o que eu pensava até então sobre festas de uma comunidade. Durante anos torci o nariz para festas assim. Deixei de ir a festas alemãs, italianas, japonesas, porque sempre me pareciam se preocupar mais com a arrecadação do que com o que era servido.

Este final de semana, tudo mudou.

Saímos de Lajeado rumo à Serra Gaúcha, à procura de vinho. Como vocês sabem como somos, gostamos de nos embrenhar – conhecer lugares onde somos um pouco mais únicos. Se todo mundo vai a um lugar, eu não preciso ir (posso ver as fotos de Koh Phi Phi e ficar tranquila, sabendo que um milhão de pessoas foi até lá, mas somente eu e mais uns outros mil foram a Koh Rok).

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A Adega Mascarello

Fomos a Flores da Cunha, terra da Adega Mascarello, onde já tínhamos em outras duas ocasiões comprado vinho. Como sempre, somos recebidos pelo enólogo, Jamur Mascarello, que é gente simples e simpática e na primeira visita havia se encarregado de brincar com a Sara para nos permitir a degustação.

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Privilégios de quem se aventura fora do eixo tradicional: sermos atendidos pelo enólogo-proprietário, em trajes de domingo!

A Adega Mascarello produz os próprios vinhos e espumantes – com um destaque especial para o Dom Bôrtolo, vinho encorpado e amadeirado que faz referência ao avô dos irmãos que tocam a vinícola. Ela também produz os vinhos brancos elegantíssimos da Casa Olivo, cujas uvas são produzidas nos Campos de Cima da Serra, a região de planalto no RS que também produz maçã.

Em uma pequena sala, somos ofertados por toda aquela beleza que vem da uva e se transforma em suco, vinho, espumante, graspa.

Eles fazem uma coisa fantástica: para os fanáticos por vinho, oferecem um serviço que encontramos apenas na Itália antes, na região do Chianti. Você leva o seu garrafão e eles completam. Saímos carregados de 5 garrafões de 4,5 litros cada, de um cabernet sauvignon delicioso e bem feito, que deve chegar até o final do inverno (rezemos).

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A Adega Mascarello faz parte do roteiro turístico Compassos da Mérica, Mérica

Ao sair, já próximo ao meio dia, pedimos a recomendação: “onde podemos almoçar?”. Sem pestanejar, nosso amigo enólogo liga para o dono do restaurante e pergunta se estão servindo almoço na Feira de Inverno, e quanto custa.

R$35 por pessoa, com vinho incluso.

À vontade.

E depois tem feirinha de malharias para conhecer.

Já pensei: é bucha. Deve ser aquela comida de panelão, tudo meio mole, sem gosto. Buffet livre, numa Festa Italiana? Bucha. Mesmo assim, vamos ser livres, e aceitar as sugestões (e o preço estava bom), então vamos.

Quando chegamos ao parque, o estacionamento quase lotado era um bom indício (quem leu “Um Ano na Provence” sabe que se mede facilmente a habilidade da cozinha pelo número de carros e caminhões estacionados). Na entrada do parque, uma casa de madeira com produtos coloniais – e gente fazendo pão. No forno a lenha. Na hora.

A coisa começava a cheirar bem – em todos os sentidos.

Na entrada do restaurante, uma placa dessas moderninhas indicava o que se iria comer dali para a frente.

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Sério. 35 reais. À vontade. E eu ainda achando que era bucha.

Entrando, restaurante lotado, mas ainda conseguimos um lugar bem em frente ao músico.

Só de passar ao lado do buffet, já comecei a mudar os conceitos.

Uma sopa de capeletti (ou agnolini, como se chama por aquelas bandas), daqueles minúsculos, feitos a mão, textura certa, que não se desmancha no cozimento e vai para a boca para começar a sessão de forrar o estômago. Ao lado, todas as carnes, para que o vivente escolha o que quer comer. À vontade.

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Fazendo de conta que come – só toma o caldinho 😉

Uma bacia de queijo ralado delicioso, pungente, e um pouco de crem de vinho para alegrar o paladar.

Sentamos à mesa com os pratos fumegantes e começamos a sessão de devorar caldo, capeleti, carne, queijo, crem e nossas expectativas. Tudo era surpresa por ali.

Depois, as saladas – dois buffets cheios de brócolis e couves-flor crocantes, cozidas no ponto certo, nada daquela coisa molenga que muitas vezes se encontra em buffets. Radicchi bebê com bacon, aquele que ainda é meio curvado, e nem tem o sabor tão amargo do seu irmão mais velho. Pimenta em conserva, curtida somente o suficiente para ainda sentir uma picância que alegra o palato e complementa o crem.

Na ponta do buffet de saladas, a deusa das polentas brustoladas. Servindo polenta com queijo na chapa, à vontade, com sorriso, oferecendo aquele manjar como se fosse mero aperitivo.

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A deusa da polenta brustolada, agraciando seus súditos!

Voltamos à mesa com pratos coloridos, repletos de verduras, legumes, polenta. A essa hora, chegam duas jarras de vinho, um tinto e um branco, gelados. É vinho colonial, desses que se bebe em festa italiana, e que não pede desculpas por ser quem é.

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Vino!

O pequeno palco, um cantor de cabelos brancos, barriga feliz e contente de morar por aquelas bandas e um violão, permeiam o nosso almoço com versões únicas e animadas de canções brasileiras. Almir Sater e Raul Seixas convivem alegremente naquele palco.

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Comendo e cantando e sorrindo

Quando me levanto para a próxima ronda, já sinto o efeito do vinho, quero dançar. Admiro-me que todos consigam manter a sobriedade em face de tanta comida, vinho e música. Mesmo assim, deleite dos olhos e das papilas, chego ao buffet, que se encarrega e me carrega de massas, abóbora caramelada, queijos fritos, tortéis de abóbora, galeto, porquinho assado no ponto.

Enquanto comemos, mais gente entra. Já são 13h30 e ainda há fila para a sopa de capeletti – a cozinha contra-ataca mantendo os buffets sempre cheios, abarrotados até. O povo faz graça com a cozinheira que chega carregando a panela cheirosa de sopa.

Depois de tudo, olho para o Fernando e pergunto: dividimos um último prato de sopa? É claro. Vamos ao derradeiro prato.

Que ainda é seguindo de um sagu de vinho perfeito, recém feito, ainda morno, coroado por um creme de leite liso, delicado, apenas levemente doce.

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Por que sobremesa inclusa no almoço só tem no Rio Grande do Sul? O paraíso do pudim e do sagu de vinho com creme!

Quando saímos, elogiamos os proprietários do buffet que estava servindo a festa. Eles ficam contentes e dizem “hoje servimos 594 pessoas. Quando os últimos elogiam, é porque o trabalho foi bem feito”.

Isso.

Elas existem. As Festas Italianas do meu ideal.

Tenho que agradecer à Feira de Inverno de Flores da Cunha de alguma forma. Quem sabe um post, chamando toda a turma para ir lá?

 

 

Quer se esbaldar e de quebra conhecer um lugar diferente e lindo da Serra Gaúcha? A Feira de Inverno acontece aos sábados e domingos, no Parque de Exposições de Flores da Cunha. O evento vai de 18 de junho a 17 de julho (ou seja, vai lá este final de semana!).

Depois da festa, passamos na Luiz Argento, uma vinícola boutique lindíssima que vale a foto. Sobre os vinhos, não posso falar nada além do design moderno e inusitado das (caras) garrafas, pois não degustamos. Mas é lindo. Mesmo. De morrer.

Ali pertinho, depois do pedágio, está Antônio Prado, outra pérola pouco conhecida. Os casarões de madeira de dois andares da rua principal (e algumas laterais) estão preservados e alguns são abertos para o turismo. À frente, é bem bacana ver a história de cada um deles, contada pelos antigos moradores, em placas gravadas em metal.

Dá para fazer um passeio fácil entre Flores da Cunha e Antônio Prado. Vem conhecer a Serra Gaúcha além de Gramado e Canela!

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2 comentários sobre “FLORES DA CUNHA: VINÍCOLA E FESTA ITALIANA COMO DEVEM SER

  1. Ai que delícia.. e ai que saudade! Rsrsrs
    Apesar de acompanhar todos os post ainda falta um tempinho pra te chamar inbox e falar, falar, falar… kkkk Parabéns por todas conquistas e transformações desse tempinho que voa!

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