Arco-íris duplo, na altura de Canguçu, RS

FUI DEMITIDA – E FOI UM DOS MELHORES DIAS DA MINHA VIDA

Eu percebi que, conforme eu compartilho com as pessoas ao que redor o que estamos fazendo e planejando, imediatamente as pessoas assumem que eu pedi demissão. É tal a cultura local, que não posso estar vivendo um período criativo, empolgante, cheio de possibilidades, sem que eu tenha pedido demissão. Às vezes eu deixo a pessoa seguir pensando o que ela quer – afinal, isso demonstra a cultura prevalecente e as suas tendências implícitas –, às vezes conto o que de fato aconteceu.

Já faz um tempo que estou livre, então acho que está na hora de discorrer sobre os pormenores. Quem sabe daí saiam lições não apenas para mim, mas para mais pessoas que leem o blog.

Rio Jaguarão. Do lado de lá, Uruguai. Do lado de cá, Brasil
Rio Jaguarão. Do lado de lá, Uruguai. Do lado de cá, Brasil

Bem, eu já tinha contado aqui e aqui que tínhamos um plano de viagem sendo arquitetado. Esta foi uma semente plantada em tempos ruins: nunca realmente havia sido feliz onde estava, e a cada dia aconteciam mais fatos desafiavam meus valores. Tínhamos colocado uma data: receberia o bônus e pediria demissão. Não no mesmo dia, mas uma semana depois.

Pois uma semana depois do bônus, as coisas estavam um pouco mais calmas. Já tínhamos decidido que a viagem só poderia acontecer após agosto, devido às monções, então havia tempo. E a cada mês trabalhado, era um pouco mais de reservas que iam para a poupança. Resolvi ir ficando, enquanto aguentasse.

Então fui chamada para o retorno da avaliação de desempenho anual (que não recebi), e meu ex-chefe me disse que não iríamos continuar. Uma parte de mim ansiava por este momento, pois nos deixaria em situação financeira muito mais confortável – parece que o sonho dourado de quem quer sair da empresa é ser demitido. A outra parte ficou chocada.

Esta parte, que perseguia um objetivo audacioso, que queria renovação, ficou estupefata. Esta parte ainda pensava que a insatisfação era apenas sua. Como sempre, não era: impossível ser infeliz sozinha, sem contaminar a tudo.

placa encruzilhada passo da miséria estrada
Para que lado você vai? Vai para uma Encruzilhada ou para o Passo da Miséria?

Bem, dado o recado, sigamos em frente. Faço aquela cara de quem não estava esperando (nem querendo) ir embora, onde eu assino? Começam as explicações detalhadas sobre os motivos da demissão – que não abordam o elefante branco sentado de pernas cruzadas no meio da sala: eu não me dou bem com você. Peço que terminemos aqui a conversa, não são necessárias mais explicações, está tudo entendido. Começo os trâmites práticos: retirar coisas pessoas do computador, mandar mensagem para o marido, assinar papelada.

Então eu pedi para me despedir da minha própria equipe. Eram 17, e alguns não estavam na empresa, assim chamei os que estavam e nos sentamos para dizer tchau. Obviamente eu não tinha muitas explicações a oferecer, e ainda era muito cedo para falar sobre os planos que já tínhamos, então apenas me despedi e pedi que todos ficassem calmos e tranquilos em relação a mim.

Foi então que aconteceu.

Campo de trigo
Campos de trigo na beira da estrada, na altura de Encruzilhada do Sul, RS

As pessoas começaram a falar. As pessoas começaram a falar coisas que eu não vou escrever aqui, pois só interessa a quem estava sentado naquela sala. Mas elas falaram espontaneamente, sem que lhes pedissem. E me surpreenderam, aí sim às duas partes – a que queria pedir demissão e a que foi demitida – ao me mostrar que aquele caminho que eu pensava ser o certo, para elas também era. As pessoas falaram de emoções, de como me viam, agora que eu não era mais sua chefe. As pessoas me procuraram nas redes sociais, por e-mail, vieram na minha casa, me telefonaram. As pessoas me ajudaram comprando coisas no meu Bazar e fazendo referências para o meu perfil no Linkedin.

Eu já tinha saído de empresas antes. Mas nunca tinha tido aquela reação à minha saída. Se fosse apenas uma pessoa, se fossem apenas os amigos mais chegados, poderia ser que quisessem me apaziguar, sondar o que havia acontecido ou falar palavras vazias. Mas houve uma profusão de manifestações não relacionadas. As pessoas me falaram sobre ser desafiadas, encorajadas, acolhidas, ensinadas. As pessoas me falaram sobre admiração.

Aquele foi um dos dias mais felizes da minha vida.

Eu percebi, ao ser demitida, que tinha mudado a vida daquelas pessoas. Que elas tinham mudado a minha vida. Que uma pessoa diferente da que tinha entrado saía agora daquela empresa.

Pela primeira vez em algum tempo, olhei para mim mesma e vi dignidade, vi respeito. Vi capacidade de transformação. Ao olhar para os outros, eu vi pares de olhos cheios de esperança, cheios de vontade, cheios de chama.

Eu percebi, ao ser demitida, que nada mais importa se dentro de mim continuasse a mesma vontade de ajudar os outros, desenvolver, estimular o pensamento e a criatividade. Que eu continuaria sendo o que era, independentemente de títulos, cargos, e-mails corporativos, benefícios. Que esta vontade não emanava de um bastão entregue a mim pelo meu chefe, mas sim de mim mesma.

Então, eu (re)comecei este blog, com a esperança de que ele semeasse um pouco de independência por onde fosse visto.

Um novo caminho é possível: Ponte Jaguarão (RS) - Rio Branco (UY), na divisa entre o Brasil e o Uruguai fronteira brasil uruguai
Um novo caminho é possível: Ponte Jaguarão (RS)-Rio Branco (UY), na divisa entre o Brasil e o Uruguai

Eu percebi que tinha uma história a contar. Que esta história poderia ser importante para algumas pessoas.

Que mais gente poderia se beneficiar em saber que sim, a gente pode ser feliz de muitas formas, e que sim, trabalhar numa empresa é uma delas. E que sim, há outras. E que sim, você é importante para o mundo, independentemente de ter cabelo roxo, gostar de punk rock, comer salsicha com sorvete, usar apenas tênis, ir à Igreja todos os dias, ler Harry Potter, falar alto, estar acima do peso, odiar crianças, viver no Face e outras maluquices que vivem lhe dizendo que você não deveria fazer para crescer na carreira.

Quando planejamos o nosso sabático no início do ano, ele seria apenas isso: um ano para repensar (e está sendo).

No caminho, porém, estou vendo que é muito mais do que isso.

Este é um ano de desafiar esta cultura tolhedora, que normatiza tudo para que você não seja mais você, e sim um lindo peão numa engrenagem que você nem sabe quem controla.

Arco-íris duplo, na altura de Canguçu, RS
Arco-íris duplo, na altura de Canguçu, RS

Então, fui demitida – e foi um dos melhores dias da minha vida!

Ps.: Muito gente é demitida e pede demissão todos os dias: é um fato que ocorre para quem trabalha – e é muito bom para você se desenvolver. Damos muita importância à forma como saímos da empresa, mas de fato o que importa é que saímos. Você nem precisa dizer que foi demitido se não quiser. Quer saber como falar que foi demitido? Leia isso aqui.

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