COMO RODAMOS 37KM EM UMA MOTO PARA VER MY SON NO VIETNAM

Duas dicas importantes para quem viaja ao Vietnam:

1) As distâncias são sempre maiores do que aparentam.

2) Não existe escurecer: o Sol simplesmente se apaga.

Tivéssemos pensado nisso, não estaríamos voltando com mosquitos batendo no rosto, a Sara no meio de nós dormindo, a cabeça pendida para o lado, os joelhos não aguentando mais a posição na moto pequena.

Era 18h, mais poderia ser meia-noite, de tão escuro que estava. Nessa escuridão toda, cruzávamos os 37km entre My Son e Hoi An, tentando devolver a moto alugada a tempo e ainda encontrar algum mercado aberto para jantar.

Ao contrário do que víamos na cidade, na estrada haviam carros sim, e eles não estavam nem aí para uma moto pequena dividida por pai tonto, mãe louca e filha dormindo. Eles só passavam, zunindo, e nós que nos cuidássemos.

“Eu esqueci meus óculos”, reclamava o Fernando, tentando manter os olhos abertos enquanto todo tipo de inseto buscava refúgio nos seus olhos. O capacete sem visor não ajudava nada. A luz da moto só fazia atrair mais insetos.

Por que cargas d’água não alugamos um carro?

A meio caminho entre My Son e Hoi An, paramos. Ele está com os braços cansados, Sara toda suada do calor de dois corpos lhe comprimindo. Acorda, chora um pouco, está cansada da vida frenética sobre a moto (mal sabe ela que os dias de moto estão apenas começando. A motinho ainda será nossa grande aliada em Krabi, Koh Lanta e Chiang Mai, mais para frente, na Tailândia).

A parada serve também para parar o tempo. Olhar a vida em volta correndo a um ritmo que só se vê no Vietnam: lento, contínuo, sem ansiedade. O barulho amortecedor da moto substituído pelos sons da cidade – carros passando, crianças brincando, um jogo na TV, portas automáticas.

São 5 min para nos lembrar que está tudo bem, apesar do medo, apesar do cansaço, do suor. Estamos apenas voltando para casa.

Ou melhor:  para o hotel.

 


 

Também pudera: as pessoas resolveram esperar o calor do meio-dia passar para então alugar a moto. Para então pegar o rumo a My Son, santuário dos Champas localizado a 37km de Hoi An.

“37 km é moleza – isso a gente faz em menos de 1h”, disse o turista que nunca foi ao Vietnam. E nós.

Aquele era mais um dia quente de trégua de monção, como havia sido os dois últimos. Dentre todas as possibilidades de passeio que Hoi An oferece – praias, centro antigo, resorts, vila de pescador, mercados – nós queríamos fazer o que tinha de mais intrépido. O que havia de mais longe. O que pouca gente via.

Numa moto. Com uma criança de 4 anos.

É muito difícil resistir a canto dos Champa: civilização que dominou Centro-Sul do atual Vietnam por mais de 1000 anos, e que declinou por pressão do povo Đại Việt, vindo do norte. Deixaram para trás traços da sua cultura e um centro religioso hindu em ruínas – muitos templos e o local de sepultamento dos reis Champa.

Num sítio arqueológico bem no meio do país: justamente o local onde os conflitos da Guerra de Opressão Americana foram mais regados a minas terrestres. Não saia da trilha, dizem os avisos do sítio – é a região do país onde agricultores ainda são vitimados pelas minas.

Civilização perdida, guerra e minas terrestres: um canto difícil de resistir.

Almoçamos em um restaurante improvisado na sala e garagem de uma família, ainda em Hoi An. Não existe hora para almoçar: de modo geral, os restaurantes funcionam nos horários dos fregueses. Chegue às 11h ou às 16h e você será atendido da mesma forma, com o mesmo sorriso e o mesmo cardápio.

É o paraíso dos viajantes.

Os donos do restaurante também parecem não se importar muito com a ausência de fregueses, dada a felicidade com que nos servem. A guerra diária para fazer a Sara comer algo, no meio daquela picância e estranheza toda, e seguimos o rumo do Google Maps.

(Obrigada Deusa, não estamos mais na China, e doravante usaremos o Google o tanto que quisermos, principalmente o Translator.)

Quando achávamos que já tínhamos visto o que Hoi An tinha para dar, nos surpreendemos novamente. Saímos da cidade por um novo bairro, cheio de grandes casas em estilo ocidental, e com – aparentemente – bons restaurantes, que parecem atender o público local. Não há nada de turístico aqui, nada preservado, nada para inglês ver. Esta é a parte de Hoi An onde mora o povo (rico), e é surpreendente o quanto alguns metros e milhares de anos separam estes mundos.

Já são 14h30 e o Sol reina dolorido sobre nossas pernas.

Sara dorme, embalada pela moto, o calor e a falta do que fazer. Paramos para tomar água, esticar as pernas, se proteger do Sol e (re)passar o protetor. Olhássemos um pouco mais ao redor, ou seguíssemos o exemplo dos locais, teríamos usado as calças e camisas de manga comprida que agora jazem enterradas no escuro fundo das malas.

Não, somos brasileiros e queremos torrar ao Sol. A única que vai devidamente protegida é a Sara, com uma camisa de algodão cheia de estrelas, manga longa protegendo a pele muito branca.

“Tivéssemos alugado um carro”, penso eu, “não teria como tirar fotos em andamento. Na moto, não tenho impedimentos ao enquadramento”, tento me convencer da escolha.

De fato, nem nos questionamos. Pegássemos um táxi para cumprir os 37km e ainda assim teria custado uns 100 reais. Mas nem cruzou pela cabeça.

Moto então, e baixa cilindrada, vamos nós às quase 2h de estrada. Fernando guiando, pouca experiência, baixa velocidade. Por nós passam caminhões, búfalos d’água, pontes, campos de arroz. A cidade grande dá lugar às chácaras, escolas da zona rural.

My Son não chega nunca, e o Sol já começa a descer.

Miraculosamente, o Google Maps não acerta nenhum lugar no interior do Rio Grande do Sul, mas My Son está bem sinalizado. Em uma rotatória, um grande sinal nos aponta à esquerda: My Son. Estamos chegando (ufa!).

A confirmação de que estávamos no caminho certo, e um pouco mais de sombra na estrada, reativa todos os sonhos daquele lugar. Sara acorda e começamos a cantar, nossa distração nesses dias de viagens longas, sem muito o que fazer com as mãos, dias só de olhar a paisagem.

A entrada do parque de My Son (e um pouquinho da sombra da nossa valente moto)

Chegamos ao santuário e parece que o dia está acabando, mas são apenas 15h30. Temos até as 17h para visitar, nos informa a bilheteria, mas é tempo suficiente. “Vocês podem entrar de moto e estacionar mais à frente.”

Poucos turistas dividem o local conosco, e é até uma surpresa quando nos deparamos com os primeiros – pensávamos, imersos no frenesi pelo qual havíamos há pouco passado, que estaríamos sozinhos.

Quem percorre My Son tem a sensação de um explorador. Os primeiros sinais de uma civilização são colocados ao longo da trilha apenas para os olhos mais atentos. Siga uma pequena placa para descobrir a primeira construção – uma torre em um templo.

Descemos o monte onde está a torre, por uma trilha estreita no meio do mato, para encontrar a parte principal do complexo: o Santuário.

Gosto de imaginar como se sentiu a primeira pessoa que “descobriu” ou “redescobriu” esses lugares. Imagine, por um minuto, estar andando por dentre a Mata Atlântica, escutando um barulho cada vez mais alto de cachoeira, e então se deparar com a Foz do Iguaçu, sem nunca ter ouvido falar nela antes.

(Fazendo aqui a ressalva que os índios que moravam por lá sabiam muito bem o que era a Foz do Iguaçu, portanto a minha versão romantizada a la Indiana Jones é praticamente impossível.)

Missão: descobrir que deus ou deusa representa cada escultura.

(Porém, permita-se imaginar.)

Descendo aquela trilha no meio do mato, eu era a própria Lara Croft. A nova Harriet Chalmers Adams.

Uma linga sobre uma yoni: representação do deus Shiva e da deusa Shakti. Uma referência ao processo eterno de criação, de macho-fêmea, de reprodução e fertilidade.

Não sou mística, e acredito em poucas coisas que exigem fé. Mas é quase impossível não mergulhar neste pensamento mágico em My Son, e pegar-se usando palavras como energia, inexplicável, emoção.

Talvez tenha sido o contraste da viagem com a realidade bucólica, e o sol amarelando tudo. Talvez tenha sido um pouco de fantasia causada por tantas imagens de deuses, deusas ao nosso redor.

Algumas pessoas dizem que My Son é o Angkor Wat vietnamita, e outras dizem que uma coisa não tem nada a ver com a outra, dado o esplendor de Angkor. Realmente, tendo estado em ambos, My Son é muito menor. Mesmo assim, a comparação me parece inútil, ambos são testemunhos de um povo muito rico, inteligente e dominante. Entender My Son é entender o próprio Vietnam. Conhecer o local em que vivia um dos seus 54 povos – fora da instalação de um museu, como vimos em Hanói.

My Son, com seus cerca de 70 templos, foi construído no século IV, durante o reinado de Bhadravarman, dedicado à veneração do deus hindu Shiva – que na região era conhecido pelo nome Bhadreshvara. Resistiu aos invasores do norte (os Đại Việt e os chineses) até o século XIV, quando entrou lentamente em desuso e acabou sendo abandonado. Em 1898, foi (re)descoberto por um francês (durante a Invasão Francesa) e passou a ser restaurado a partir de 1937.

Das obras restauradas e não restauradas de My Son

My Son durou, em suas diferentes fases de construção, esplendor, declínio e restauração, mais de 1500 anos. Até que uma das maiores potências mundiais resolveu entrar em guerra indireta com o seu oponente russo, e de lambuja assegurar mais um território para a sua própria dominação econômica – e fez do centro do Vietnam o cenário de uma das guerras mais violentas e químicas do mundo moderno.

My Son: marcas do tempo e da guerra. No chão, a poça d’água marca o local da caída de uma bomba.

Em 1969, um bombardeio intenso na região destruiu boa parte dos templos, inclusive os já restaurados, e abalou a estrutura dos demais, deixado marcas no chão que até hoje são visíveis.

É muito difícil conciliar o povo vietnamita que conhecemos até o momento, cujos pais certamente estiveram na guerra, com a imagem perversa e distorcida que me foi passada ao longo dos anos pelos filmes de guerra americanos. É realmente muito difícil acreditar que as duas coisas são a mesma coisa. De fato, impossível acreditar.

Nova yoni decorada com flores – simbolismo sobre simbolismo

(Mais tarde na viagem, veríamos o outro lado da moeda, no Museu dos Resquícios da Guerra em Ho Chi Minh, e entenderíamos melhor a situação.)

O certo é que, ao fim do passeio, voltamos à moto pelo caminho da Chapeuzinho Vermelho. Ao menos, é o sonho em que Sara e eu nos jogamos. Fomos em direção à entrada do complexo, onde uma exposição sobre o povo Champa e My Son nos aguardava.

Já eram os últimos minutos de sol – e a exposição, que deveria ser vista com detalhe, propriedade e calma, foi apenas lida dinamicamente. Mal dos que fogem do calor – tivéssemos chegado mais cedo, não estaríamos correndo agora para absorver tudo.

Ou melhor, dito: eu não estaria correndo. Porque Sara apenas brincava ao redor, e Fernando me chamava para a moto, preocupado com a estrada na volta.

Não sai do caminho: risco de mina terrestre

Subimos então os três na pequena moto, rumo a Hoi An, onde nossas camas confortáveis nos aguardavam no The Full House. O início da viagem, agraciado pelo pôr do sol, que ameniza o calor sufocante do dia, é um momento de contemplação. Em nenhum outro lugar do Vietnam vimos casas e templos como aqueles: a decoração minuciosa, intrincada, colorida e rebuscada, diferente do centro, diferente de Tam Coc, diferente de Halong.

Passamos tudo isso batido, cruzando apressados por casas, escolas, campos, búfalos, templos, casas de comércio, crianças correndo, gente sentada no alpendre, cafés. Às custas dos milhares de fotos que não tirei, seguimos direto para Hoi An.

Mesmo com a pressa, a noite chega, sem nem dizer por quê. Apenas aparece, sem sinais muito claros de que iria vir. E nós, com uma criança dormindo no meio, cabeça pendida para o lado, cruzando o interior do Vietnam à noite, numa motinho de baixa cilindrada, nos perguntamos:

Por que raios não alugamos um carro?

 

 


O Vietnam foi um dos países mais surpreendentes da viagem! Quer ver os nossos relatos já publicados?

jiuzhaigou galho sobre lago azul outono

Chegando a Hanói: viemos por terra, de ônibus, desde Nanning na China. Aqui eu conto como é a travessia e mostro um pouco da bela paisagem do trajeto.

Hanói: Museu de Belas Artes e Templo da Literatura / Passeio com o Hanoi Kids para entender a cultura e o povo vietnamita (com direito ao museu Etnográfico e café com ovo!)

Halong Bay: fizemos um cruzeiro de duas noites, com uma noite em um resort numa pequena ilha na baía de Cat Ba.

Tam Coc: um dos lugares mais impressionantes de toda a viagem, com rios que cruzam cavernas embaixo de montanhas, e que se podem visitar de barco.

Hué: a Cidade Imperial devastada pela Guerra dos EUA, onde visitamos as tumbas reais mais megalomaníacas desde Xi’an, e fizemos bons amigos latinoamericanos.

Hoi An: vencemos a monção para conhecer a cidade mais linda de todo o Vietnam. Além do centro histórico, a cidade portuária tem praias cheias de bossa e uma vila de pescadores onde a gente esteve em contato com um lado menos turístico da região.

 


O Vietnam foi um dos países que mais nos causou aprendizados e mudanças pessoais. Dá uma olhada no que já foi publicado na categoria Viajando e Aprendendo:

templo budista tibetano china

Está pensando em ir ao Vietnam? Aqui tem 12 coisas que você precisa saber antes de pisar por lá!

Felicidade está nos olhos de quem vê – uma das revelações mais profundas da viagem e que aprendemos durante a nossa passagem pela tal praia paradisíaca de Halong Bay.

Empatia é algo que você pode desenvolver numa viagem a um lugar onde não seja maioria (e o Vietnam é um bom começo!).

Foi em terras vietnamitas que fizemos um balanço dos nossos primeiros 2 meses na estrada.

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