acordeão acordeonista música de rua

PARE PARA OUVIR OS ARTISTAS DE RUA

Para você ler ouvindo

 

Vinha pela rua hoje, do caminho do Correio. A casa dos meus pais, onde estamos parando pelo tempo, é bem no centro de Lajeado, então é um ir e vir constante de gente. Todo mundo muito ocupado, muito preocupado, muito importante, indo e vindo sabe-se lá de onde, sabe-se lá para onde, carregando suas sacolas.

Carros passam pela rua principal que ainda conserva os paralelepípedos da minha adolescência, com aquele barulho característico de borracha sobre a pedra-ferro. A Igreja Evangélica e o Banco do Brasil olham um para o outro de soslaio das suas esquinas, e param aí as marcas do passado. Símbolo do progresso da região, Lajeado tem um centro irreconhecível para que saiu daqui há 20 anos.

Cruzo a rua da lotérica e começo a escutar. Uma melodia diferente preenche a tarde quente de verão. Penso se temos uma loja em clima natalino tardio – ou pré-carnavalesco – mas a música não é nada da mesmice que acompanha tais iniciativas. Algo rebuscado, com floreios, charme, um jeito de coisa antiga, cruzado com lembranças dos dias que passamos em Paris.

acordeão acordeonista música de rua gaita

Aí vejo: tem alguém tocando acordeão. Raro. Lajeado, cidade de imigrantes alemães, italianos, todo mundo trabalha – o lazer está confinado aos finais de semana, tempos delimitados de prazer para não fazer feio aos vizinhos. Terça à tarde, não se ouve música. No final da tarde, quando muito, os casais caminham no centro: passo rápido, suor correndo pela testa, porque mesmo depois do trabalho, tem que trabalhar.

Ando um pouco mais, já consigo ver melhor. É uma moça, daquela pele escura que sempre associo com tudo o que é lindo – talvez porque tive uma colega de faculdade, linda, com aquela mesma pele que é tão diferente da minha, branquela. O cabelo castanho escuro, preso num semi-coque, cai numa franja e uns fios soltos ao lado, meio Brigitte Bardot, meio samurai, meio gente que se arruma para sair de casa parecendo que nem se olhou no espelho.

Ela segura o acordeão dourado com as mãos finas e dedilha aquelas teclas – inúmeras, dos dois lados – abrindo e fechando o fole, tal fora uma dança. Nunca entenderei quem toca acordeão: o movimento das duas mãos simultâneas somando ao abrir e fechar dos braços, aqueles milhares pontos pretos, todos iguais, tudo muito complexo para quem nunca aprendeu a tocar nenhum instrumento.

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Tenho uns trocados ali, umas moedas que recebi no correio, e já deixo no seu chapéu. Digo parabéns, ela me diz obrigado, me viro para sair. Mas então eu penso: por quê? Olho ao redor, ninguém a vê. A procissão segue seu ritmo lenta, rumo a nada.

Mas eu não pertenço mais a ela.

Bem à frente da moça há um banco que os namorados por vezes usam para fazer seus trabalhos. Sento. Ela agradece a micro plateia com um sorriso. Começo a escutar.

Ela se perde no tocar. Fecha os olhos, olha para o céu. Parece nem mesmo mais ver enquanto toca – passa por cega, tão imersa que está. Toca uma milonga e depois um choro – Tico-Tico no Fubá. Bato palmas quando acaba e ela abre um sorriso muito largo.

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Enquanto assisto ao meu show exclusivo, o povo passa e olha mais para mim – habitante do Planeta Júpiter – do que para a musicista. Pareço atrair ainda mais atenção quando bato palmas – bater palmas parece tirar todo mundo do acordo tácito de fazer de conta de que não há alguém parada no meio da calçada, carregando no colo um instrumento de 9kg, dourado.

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Pergunto a ela: de onde és? “Sou argentina”, me responde em português, deixando claro que não se interessava pelo meu espanhol arranhado. “Estamos aqui até o dia 15, depois vamos para Caxias”, complementa. Há quanto tempo viajam? “Uns 3 anos. Estávamos em Manaus, e também Olinda – quero voltar agora para lá para ver o Carnaval – e já estivemos em Caxias.”

Saio correndo para buscar a minha máquina fotográfica e tento levar o pessoal de casa junto – mas o que os olhos não veem, e os ouvidos não escutam, não pode tocar o coração. Volto, e ela ainda está lá.

acordeão acordeonista música de rua gaita ensinando a tocar

Quando chego, uma menininha está extasiada com o acordeão. Ela, aberta em sorriso e atenção, sem planos estabelecidos para o dia, aceita a menininha em seu espaço: mostra-lhe as notas, permite-lhe sons, abre-lhe o horizonte para o que é a música. A mãe, paciente, mas precisa ir embora, a menina não tem pressa. Quando saem, a menina volta e toca um pouco mais. De longe, acena para a acordeonista a menina que foi embora, mudada pela música.

Descubro que é filha de engenheiro, que tem um companheiro de São Paulo e era professora de piano. Que é de Buenos Aires, mas já saiu há muito de casa. Enquanto conversamos, e tiro suas fotos, o povo começa a reconhecer que ela está ali. Para um pouco. Fala com ela. Eu quebrei o acordo tácito, e comigo foram mais alguns.

Sento bem à sua frente, e uma senhora me pergunta: “será que ela quer dinheiro?”. Eu disse que sim. “Para quê?” – como se houvesse alguém que, trabalhando, apenas recebesse o mérito do seu trabalho caso preenchesse uma ficha com todos os destinos reservados para o dinheiro ganho. Eu respondo, brevemente, extrato de uma conversa sua que ouvi com a gari que ali passou – colombiana – eles estão viajando. Vão à Colômbia.

A senhora lhe dá algum dinheiro, e depois conversa com ela: esse acordeão está meio velho. Meu marido também tem acordeões. Quatro. E dois deles importados – um francês e um alemão. A musicista apenas lhe sorri docemente, e não registra o quê de superioridade embutido no comentário. Apenas reconhece que o seu acordeão já viu muita coisa – tem cerca de 70 anos.

A esta altura, mais gente quebrou o acordo. Meu pai e a Sara estão sentados escutando a moça. Ao lado dele, um senhor também escuta. Mais tímido, o segurança da loja do outro lado da rua escuta atentamente e tem com ele um colega deste auditório urbano. Dois senhores sentam no banco, um pouco mais longe. Mais gente abastece o seu chapéu preto, amassado, no chão.

Coloco o meu cartão por ali, para podermos nos encontrar depois, e ela se interessa: “o que é P&D?” Resquícios de uma vida passada, lhe respondo.

Ela me diz que vivem de artesanatos, pulseiras, anéis, colares de pedra. Aqui em Lajeado, um senhor lhes fornece as pedras lapidadas que usam e lhes permite dormir no seu quintal. Digo que hoje será difícil dormir, pelo calor, ela apenas sorri: eles têm até um ventilador! Tem tudo o que precisam.

A música é o seu prazer. Era professora de piano, mas o mundo a chamava. Trocou o enraizado piano por um viajante acordeão e foi ao mundo. Toca porque ama. Toca na rua, em bares, em restaurantes. Mas gosta mesmo de tocar na rua, ver como as pessoas reagem, interagir com elas.

acordeão acordeonista música de rua gaita ensinando criança a tocar

Ela vê que o povo aqui está surpreso. Que o povo aqui pouco vê gente assim: sem acordos, sem carteira, de chinelo, meio da tarde com acordeão no colo. Sabe também que o povo aqui precisa é de música. Então, mesmo com os olhares de estranheza, os não olhares, os olhares de fantasma ou os olhares ao longe, ela segue tocando.

Há dias bons, há dias ruins. Sofre preconceito – todo o tipo de povo faz contas de como ela ganha fortunas tocando na rua. Uma gargalhada ecoa pelos paralelepípedos: “se nem quem tem carteira registrada tem dinheiro no final do mês, imagina nós!”.

Sento à sua frente para escutar as últimas músicas antes de ela trocar de ponto – me diz que as lojas nem sempre gostam de tê-la tocando em frente, então não abusa. Eu penso que deve estar brincando comigo, mas é verdade.

Começa a tocar uma do Chico – João e Maria. Parece a perfeita música surreal para aquela tarde abafada. Enquanto ela toca, olhos fechados, corpo meio encurvado, a música preenchendo todo o silêncio que as motos permitem aos passantes, passa um ser da minha adolescência.

Na época, o símbolo da perfeição masculina – tamanha que até título de “gatinho” ganhou na escola. O máximo que poderíamos vislumbrar de perfeição à época era a casca. Era o amigo ideal, o namorado ideal, o aluno ideal. Passa hoje, mais maduro, 20 anos depois, barba grisalha, corpo esbelto.

Quem olha por fora, continua a lhe eleger para o posto.

Contudo, ele também fez o acordo – cruza reto, alheio, imerso em si, sem nem olhar a beleza sendo formada pelos dedos esguios da argentina.

acordeão acordeonista música de rua gaita

 

Neste momento, tenho a certeza absoluta de que a perfeição está em mim, na musicista com o acordeão septuagenário, no povo que parou para vê-la e na minha filha dançando na calçada, numa tarde quente de terça-feira.

 

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12 comentários sobre “PARE PARA OUVIR OS ARTISTAS DE RUA

  1. Eu SEMPRE para para ouvir músicos . Primeiro , porque gosto muito de música e segundo para prestigiá-los , pois sei bem como é difícil a vida do músico que não é celebridade. Muito trabalho e pouco dinheiro . É preciso gostar muito de arte e música para se manter na profissão…
    Eu sempre vou conversar com eles e elogiar a performance . Acho importante.

    1. Oi, Márcia! Que bom – eu também gosto muito.
      Meus motivos, contudo, são mais egoístas do que os seus: paro porque preciso de um pouco de ar fresco na minha vida. 🙂
      Acho também que na rua vemos uma arte não comprometida, mais bruta, mais real.
      😉

    1. Obrigada, Ju!
      Realmente, é de bater palmas para quem vive de arte na incerteza da rua – nestes a vocação fala MUITO alto, muito mais alto do que naquele que só fariam isso pelo dinheiro a ser recebido ali na frente.

  2. Ola Cristina!!
    Tive exatamente a mesma experiencia. tarde quente de verao….caminhando no centro de Lajeado e de repente aquele som que lembrava Buenos Aires….sentei….fiquei ali por cerca de 30 minutos escutando ela….que viagem! conversei com ela tambem….bati palmas e quando aplaudia…mais algumas pessoas ntambem aplaudiam. Liguei para meu filho (que quer ser musico…mas nao consegui). Pensei em escrever sobre a experiencia magica…mas com o caminhar a vida voltou ao normal. com teu texto revivi aquele momento.

    1. João Paulo, lindíssimo seu comentário!
      Escreva! Coloque no papel essa emoção, que ela estará para sempre gravada.
      Temos um cantinho aqui para ilustres convidados que são dados à escrita: quer aparecer por lá?

  3. Muito legal o texto! As vezes me pego “desperdiçando” uma audição dessas. Geralmente quando estou a caminho do trabalho. Arrumamos desculpas para ver e ouvir somente o que queremos…
    Já quando estou com meus filhos eu paro para ouvir. Quero que meus filhos entendam que essas pessoas são artistas e esse é o trabalho delas.

    1. Oi, Thales! Que bom tê-los por aqui!!!! 😉

      eu penso que os filhos vem para a nossa vida para recuperarmos a visão ingênua e fantasiosa que tínhamos na infância… a vida é muito melhor quando estamos com eles ao lado, não?

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