O QUE EU FAÇO COM A MINHA FILHA QUANDO ELA APRONTA

“Daí que não possa a liderança dizer sua palavra sozinha, mas com o povo. A liderança que assim não proceda, que insista em impor sua palavra de ordem, não organiza, manipula o povo.”

Paulo Freire.

 

Criança de 4 anos é demais.

Ela fala as coisas mais inteligentes do mundo, faz associações fantásticas, pinta o seu imaginário de uma forma que o adulto já perdeu faz tempo.

Minha irmã mais nova, nesta idade, falou que na próxima encarnação queria nascer homem para usar bombacha (feliz dela que cresceu num mundo mais esperto, e que agora usa bombacha e saia quem quer). Mas como ela sabia o que era encarnação? E como entendeu plenamente o conceito, para fazer esta associação aos 4 anos? Até hoje me espanta.

O demais, entretanto, tem um outro lado: o temperamento.

Não quero tirar foto!
Não quero tirar foto!

Aos quatro anos, tudo é decisivo. A laranja TEM que ser cortada ao meio, e não em pedaços. Se alguém comer um pedaço do seu pão, acabou a brincadeira. A música tem que ser cantada por ela sozinha, e qualquer menção a uma princesa com o seu nome é um ultraje.

Aos quatro anos, este pequeno ser já entende bem o pai e a mãe, e sabe quais são os comportamentos que os agradam – e aqueles que os irritam.

Para marcar território e dizer: “essa sou eu”, dona Sara já fez de tudo. Chorou, esperneou, gritou, bateu, mordeu.

A reação automática, e aquela que vejo levar mais incentivos hoje, é ficar com raiva e bater. Bater até que a sua raiva passe, esteja completamente na criança, e que ela saiba bem quem manda ali.

Só que quando a Sara nasceu, eu já tinha feito análise o suficiente para entender o quanto apanhar/bater é um rumo que eu não gostaria de tomar. Eu precisava encontrar um outro caminho.

Para começar, porque um pai protege, não bate. Disfarçar violência sob um manto de proteção é o mesmo que os governos ditatoriais falam aos seus “súditos” – estou te protegendo de ti mesmo.

Que tamanho tem que ter a criança para você parar de bater nela?

Depois, eu já tinha exemplos bem claros e abundantes de como essa postura de Pai Bravo apenas machuca a criança – e por fim, a relação dela com os pais, dos pais com ela, ao longo da vida. Se o intuito é fazer com que a criança se afaste assim que alcançar a idade adulta, camuflando o afastamento com o nome de independência, talvez até seja uma boa prática. Mas se o intuito é formar uma família unida, que se apoie a longo prazo e se respeite mutuamente, não.

Então, nós não batemos.

Quando ela apronta, primeira coisa: eu me acalmo.

Mãe, eu quero subir este morro aqui!
Mãe, eu quero subir este morro aqui!

Depois falo sério, e prefiro ir com ela a um outro quarto ou sala para termos uma conversa. Ao nos afastar dos olhos dos outros, eu a protejo. Digo a ela que a amo muito e gosto muito dela, mas que não gosto do que ela está fazendo.

Ela normalmente me abraça e pede desculpas. Pergunto então se ela gosta quando fazem o mesmo com ela – normalmente a resposta é não. Digo que não gosto também, mas que a amo muito.

Beijamo-nos e saímos.

Quando ela está muito nervosa, eu a deixo no cômodo para se acalmar, comigo perto, sempre de porta aberta. Ela não está de castigo, pode sair, mas está apenas pensando e relaxando. O que geralmente acontece, sem eu ter que dizer muita coisa, é ela me chamar e dizer: “mamãe, desculpe, eu não deveria ter batido/gritado/mordido”.

Ela já tem compreensão do que fez errado. Respondo que a amo novamente, e que fico feliz que ela tenha pedido desculpas. Abraçamo-nos, beijamo-nos e saímos.

Quando nada disso dá certo, entra a tática da curiosidade – e essa eu uso desde bem cedo! Encontro um espacinho no meio do choro ou do grito (aquela respirada que ela dá) e digo: “quer saber uma história de quando a mamãe era pequena?” ou “vamos brincar de pegar a bunda do papai?”.

Olha eu aqui, mãe!
Olha eu aqui, mãe!

Geralmente, é tiro e queda. A curiosidade é maior do que a raiva, o cansaço, a tristeza ou o que quer que tenha causado a briga – e podemos deixar aquele momento de conversa para outra hora, quando ela estiver mais calma.

Já escutei que nós não dominamos a Sara. Que estamos sempre correndo atrás dela. Que deixamos ela fazer de nós: gato, um e sapato, o outro.

Que delícia!

É uma vitória ao escutar isso, principalmente quando vem de Pais Bravos. Percebo aí que estamos criando uma menina esperta, que está aprendendo a se posicionar, mas também a ter empatia, que se expressa.

Uma menina que tem capacidade de liderança, que interage com os adultos de forma amorosa, apropriada e também desafiadora. Que questiona o mundo à sua volta e está se preparando para ser uma pessoa realmente independente no futuro.

Uma pessoa realmente independente toma decisões sozinha, de forma madura e consciente, conhece seus limites e usa seus potenciais. Ela faz tudo isso enquanto se mantém amorosamente próxima a sua família – e não distante, fugindo de algo que não entende.

De fato, ela é uma pessoa. Não apenas uma criança que obedece aos pais, uma pessoa. Suas opiniões, decisões, anseios, dores, emoções, contam. Ela “aprontar” nem sempre é sinal de má educação sua: os pais (= eu) também podem ter sido mau educados com ela. Podemos ter esquecido algo importante para ela, podemos não a ter ouvido, podemos a ter machucado.

Os pais fazem essas coisas  – e  precisamos nos lembrar mais vezes que estamos lidando com um outro ser humano com pensamentos e sentimentos.

Eu aguardo ansiosamente os próximos anos da Sara para ver o resultado das nossas decisões.

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Espero que, no futuro, ela continue sendo meiga e decidida como hoje.

 

 

 

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6 comentários sobre “O QUE EU FAÇO COM A MINHA FILHA QUANDO ELA APRONTA

  1. fico aliviada quando percebo um movimento grande no mundo de criação sem violência. bater, gritar, castigar… são formas de violência. estou em busca do nosso caminho aqui em casa para lidar com momentos nervosos dos meninos. meio que no mesmo passo que vocês. obrigada por compartilhar!

    1. Oi, Nani! Olha, uma vez uma pessoa me disse que se os filhos não forem melhores do que os pais, não há progresso. Então, estamos fazendo a nossa parte, e dando os nossos passos. Não é fácil, porque a resposta instintiva é outra, mas dá para educar e até lidar com este tipo de momento sem bater sim 🙂

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