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A SÍNDROME DO EUPRESO – ou, A SUA VIDA É MAIS IMPORTANTE QUE O SEU TRABALHO

Em uma das cidades em que vivi, tive uma massagista. Carismática, agenda lotada, incansável: começava atendendo às 6h e ia até as 22h, segunda a sábado. Próximo às grandes datas, começava às 5h e se estendia até que o relógio já estivesse marcando o dia seguinte. Foram as sessões de massagem mais relaxantes que tive, era uma profissional louvável.

Além de exímia massagista, ainda é boa pessoa: ajuda as suas clientes, promove os negócios de umas com as outras, tem ouvido paciente e gentil coração para acolher mesmo as demandas menores que chegam na sua maca.

Após algumas semanas de atendimento, contudo, ela começa a se abrir. Agenda lotada, não tem tempo para ir às lojas, viajar ou ter amigos. Sente falta da família que mora mais ao Norte e do filho, que há uns 2 anos foi de vez para o Sul. O marido se desligou da empresa e abriu um negócio. Agora, sem outro vínculo, a não ser ambos os negócios, vê-se presa.

Tem medo de seguir o filho, e perder a clientela. Não tem mais pique para começar um negócio do zero, como fez há anos quando se mudou para lá atrás do marido.

pássaro voando céu nublado

Como minha ex-massagista, vi inúmeros eupresos ao longo dos anos, pelas cidades em que passei. Gente que falava 4 línguas, que tocava na raça implantações de sistemas, que montava rede de distribuidores globais, que construía fábricas do zero, sem muito apoio ou conhecimento prévio.

Gente que criava um mundo novo, gente que poderia ir à Lua e voltar – mas estavam presos. Alguns presos ao local, por conta de família, amigos. Outros presos ao emprego em si, à segurança de receber seu salário a cada final (ou começo) de mês. Muitos presos ao status, prestígio ou reconhecimento emanado da empresa em que trabalham.

Sempre pensei que, para manter os seus circulando à volta como satélites, a família deveria ter laços muito fortes. É comum, entre expatriados, encontrar histórias de infâncias tristes, isoladas, falta de apoio, pais muito rígidos e agressivos. Mesmo aqueles que não admitem para si, quando escuto suas histórias – todas ressoam o mesmo.

Ser capaz de distanciar-se requer certo desapego da família. Ponto.

Até que ponto este desapego é benéfico, fica a dúvida. Ter laços nos conforta e assegura do nosso lugar no mundo. Talvez a linha divisória esteja no laço forte demais, que impede ao indivíduo desenvolver todo seu potencial, ou o submete a uma relação disfuncional (trabalho ou vida), de forma a manter-se sempre perto.

Outros se veem presos pelo salário. Ganhamos salários mensais, e fazemos contas mensais. O parcelamento é só um círculo de ganha-paga-compra na vida (incluindo da vos fala – até garfo e faca comprei parcelados em 10 vezes no carnê).

É tal o entrelace do parcelamento com o que consideramos vida normal, que os poucos indivíduos que pagam à vista são chamados loucos. É uma característica notadamente brasileira, visto que, pleno 2013, a Amazon começou a introduzir o conceito para manter o consumo do Kindle frente à crise. Aqui, fazemos cirurgia plástica parcelada.

Queremos este salário mensal, e nem sabemos bem o que fazer em situações alternativas. Como tratar o dinheiro obtido de uma venda de imóvel? O que fazer com a herança recebida?

pássaro amarelo comendo flor rosa camélia

E se tivéssemos uma consultoria, todos, e recebêssemos apenas quando finalizássemos o projeto? Como seria a sua vida caso trabalhasse para você?

Queremos este salário mensal, e nem percebemos que estamos financiando às nossas empresas, entregando nosso tempo adiantado e recebendo apenas após 30 dias – ou no pior dos casos, 35.

Queremos um salário mensal para podermos pagar nossas contas mensais.

Talvez, contudo, a prisão mais elegante, a mais sofisticada seja o prestígio derivado da empresa. Queremos trabalhar na Corporação XPTO porque ela aparece na mídia, ou é grande, ou é inovadora, ou tem fama de flexível – e isso passará os amigos a imagem de que estamos no topo da cadeia alimentar.

Mal sabe a criatura que quer trabalhar no “lar da flexibilidade”, ou no “reino da disponibilidade”, que isso representa abdicar de vida própria e trabalhar 50-60 horas semanais para os Godzillas.

Vamos a eventos corporativos com música tema, discursos eloquentes, gritos de guerra e exposições pessoais e somos tocados em nossa veia emocional pelas palavras de um bom profissional de marketing, que sabe que as pessoas não trabalham apenas por dinheiro. Elas querem motivo, querem realização.

Parece, então, que entramos num culto, e sairemos purificados dessa experiência, de alguma forma superiores aos nossos pobres vizinhos, amigos, ex-colegas de faculdade, que penam em suas vidas pacatas de massagistas, livreiros, artistas, donos de loja de brigadeiro gourmet, ou de objetos de decoração.

Esquecemos, contudo, que ao fazerem massagem, abrirem uma livraria, seguirem seu caminho artístico, ou tocarem suas lojas de brigadeiro gourmet ou de decoração, nossos vizinhos, amigos e ex-colegas de faculdade estão, todos os dias, trabalhando para seus próprios sonhos.

Trilhando as suas vidas focados em si mesmo.

O que tem todos eles em comum?

Para todos, o futuro não é dado, e deve incluir mudanças, esperadas, inesperadas, desejadas, evitadas, plantadas.

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Sejamos um pouco mais livres, e um pouco mais desapegados. Saibamos trazer arte para nossa vida, e criar novas possibilidades dentro de nós. Sejamos nós nosso projeto mais importante, a nossa própria fonte de maior orgulho e prestígio.

Que tal ser, ao invés, um eulivre, voando como um pássaro, sem amarras, com o horizonte mais distante possível?

 

Ps.: O único senão: o caminho do empreendedorismo também pode levar a um eupreso, como no caso da minha querida massagista. Manter a vida acima do trabalho, e as possibilidades abertas para um futuro incerto, é o desafio. Esses todos que montaram livrarias e lojas, ou que seguiram sua carreira artística, ou abriram uma estética, assim como os que trabalham para a Corporação XPTO, apenas estão livreiros e lojistas, artistas e esteticistas, empregados.

 

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