MÃE, ESTOU COM MEDO – ou, QUANDO DEIXAMOS DE ADMITIR NOSSOS MEDOS?

Trilha sonora:

Esses dias, fui com a Sara a uma festinha de aniversário num buffet, desses bem equipados. Piscina de bolinha, airplay, videogame? Não, caro leitor: mini-barco viking, la bamba e torre. A mãe aqui quer ser legal e participar da vida da filha – apesar de morrer de medo de tudo isso – então entra no barco viking, fazendo cara de descolada.

No meio da rodada, a confirmação: por que diabos entrei nisso? Sara ao lado, nem se descabela. A mãe, nem abre os olhos.

Saio de lá e minha amiga diz: vamos no la bamba, todos juntos? Eu olho para aquele brinquedo indefeso e penso, que mal haverá? Ledo engano – todo mal havia. E eu quieta, tentando arrasar na coragem.

Pois ao meu lado, um menino de uns 5 anos fala em alto e bom som para a mãe: eu estou com medo e quero sair.

Simples assim.

Todos os coleguinhas ao lado e ninguém nem dá bola. Parece que é normal ter medo nesta idade, a moça simplesmente abre a portinha e o menino sai.

La Bamba, apavorando de crianças a adultos de 36 anos

As pessoas de modo geral me tomam como corajosa, mas eu sinto muito medo. O mais famoso, principalmente entre os colegas de trabalho, é o de turbulência. Ele não me impede de entrar num avião, mas me faz segurar a mão de quem estiver ao lado enquanto desacelero o coração. Serei para sempre grata ao Comissário da Emirates que ficou ao meu lado por mais de 30 min, apenas conversando enquanto atravessávamos o turbulento céu nigeriano.

Também senti muito medo quando troquei de emprego. Tínhamos poucas reservas, apartamento e dois carros para pagar, e a aterrissagem na empresa nova foi bem pouco promissora. O pensamento de morar embaixo da ponte cruzou diversas vezes a mente – e se instalou, com direito a cama quente e chá das cinco, disposto a estimular o que fosse para me manter empregada.

Maior, contudo, do que o medo de morar embaixo da ponte, era o medo de admitir que o passo fora em falso. Esta era uma grande oportunidade, numa grande empresa, num bom cargo. Como assim, olhar para si e dizer que havia errado? Que medo de chegar para os amigos, rabo entre as pernas, e dizer: não deveria ter ido.

Esses dois medos se embolaram, e em algum tempo eu já fazia coisas nas quais não acreditava. Não havia mais separação pessoa-trabalho. Não havia mais tempo ocioso, nem jantares no meio da semana. Não havia mais buscar ou levar a filha na escola, não havia mais vê-la sair fantasiada de índia, coelho ou palhaça. Não havia mais leitura, filme, escrita, cozinha. Pouquíssimo do que eu era sobrou, de tão forte que este medo embolado se tornou.

Vista aérea dos Alpes, na região de Milão

O medo começou a ir embora apenas quando comecei a voltar a ser quem era: quando a arte voltou à minha vida novamente. E a gente já sabe também como esta história terminou.

Apesar de ser adepta da máxima de que a experiência é a melhor professora, eu poderia ter passado sem essa (ao menos, passado por menos tempo). Poderia, também, ter admitido meu medo, e ter buscado ajuda.

Poderia ter dito: para isso que eu quero descer, antes.

Em que dia das nossas vidas decidimos que já somos grandes demais para sentir medo? Em que dia paramos de usar a palavra medo, e a trocamos por apreensão, ansiedade, angústia, pânico?

Aquele menino, do la bamba, me ensinou uma grande lição.

Não tem nada de errado em admitir um erro. Não tem nada de errado em tentar e falhar. Não tem nada de errado em ter medo dos Godzillas da vida – eles são assustadores mesmo.

Vista aérea de Copenhagen, Dinamarca

A vida é tão simples quanto as palavras que usamos.

Diga: sim, eu tenho medo.

Reduza-o a um sentimento simples.

E liberte-se dele.

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Um comentário sobre “MÃE, ESTOU COM MEDO – ou, QUANDO DEIXAMOS DE ADMITIR NOSSOS MEDOS?

  1. O medo pode ser nosso amigo ou inimigo,quando nos preserva, é nosso amigo mas quando não nos deixa seguir em frente se torna um inimigo dificil de combater.Ter medo é normal.

  2. Gostei dos 2 textos que li e fiquei pensando no porque de complicarmos tanto, se podemos simplificar e chegar a um resultado. Sobre o texto ” Mãe tenho medo” fiquei tentando lembrar quem foi que disse que qdo crescercemos não poderíamos ter medo. Vai entender os adultos! Rsrsrs

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