O DIA EM QUE A SARA COMEU MOELA – ou, QUANDO FOI A ÚLTIMA VEZ QUE VOCÊ PROVOU ALGO NOVO?

Aqui em casa temos um combinado com a Sara: todo alimento novo ela tem que provar. E provar não é só encostar a língua, ou comer apenas 1 pedacinho. Provar é comer pelo menos uns dois bocados, de tamanho normal, que permitam a completa sensação do alimento: mastigação, sabores, odores, textura, deglutição.

Se ela não gostar, ok, não precisa mais comer. Naquele dia. Noutro dia, tentamos novamente. Foi assim com alface, grão de bico, tomate cereja. Vai sendo assim com qualquer outro alimento que ela considere novo. Ela foge ainda um pouco, mas de modo geral, prova.

Pois esses dias, na viagem ao Sul, paramos em Curitiba e, apesar da objeção dos nossos anfitriões ao restaurante, fomos ao Madalosso (para quem não conhece, teoricamente o maior restaurante da América). Geralmente, o Casal Cuore foge de tais emblemas, mas era uma segunda-feira, já era 13h e a Sara estava com fome. Madalosso foi a pedida em Santa Felicidade.

Quem já foi a um rodízio italiano, já viu todos. Comida vem em pequenas travessas à mesa, salada de radicchi com bacon, risoto, polenta frita, frango frito e massa, que compulsivamente vão sendo repostas enquanto os estômagos sentados a ela tiverem capacidade de absorção.

Um dos pratos era a moela.

Um desafio a qualquer paladar – sabor de carne e sangue, forte, meio mole, textura quase de um patê. E foi a primeira carne a chegar à mesa.

Quando a Sara viu, pediu: quero um pedaço.

Assim, sem pestanejar, sem fazer voltas, como se comesse moelas na casa do Casal Cuore desde o nascimento, sem provar, sem rodeios, sem rituais.

Pensei por 1 segundo em dizer que ela não iria gostar, mas me contive. Entre tantas outras coisas, o nosso espectro de alimentação é decisivamente influenciado pelos hábitos paternos.

Ela pegou aquele pedaço de moela, e enfiou-o todo na boca. Mastigou-o decidida, e saiu correndo para brincar no parquinho, rindo.

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Come sua moela, minha filha

 

Eu fiquei ali, de boca aberta, meio pasma com aquilo, sem acreditar.

Pensei então: se a minha filha pode comer, eu também posso. Uma moela não pode ser mais forte do que eu. Peguei a moela, cortei um pedaço, e comi. Um pedaço de tamanho normal, que me permitisse a completa sensação moelística. E comi mais um, pois esse era o combinado.

Fiquei pensando em quantas coisas que não tive coragem de fazer ao longo dos anos: dar um pé na bunda do chefe e dar um gás na minha carreira de escritora/blogueira/palestrante/engenheira de alimentos/coach, andar de montanha russa, voar naqueles teco-tecos para ver as linhas de Nazca, ter um outro filho e comer moela.

 

Qual foi a última vez que você comeu algo novo? Estou pensando aqui nos meus (muitos) amigos com dietas restritas, que vão na nossa casa almoçar e são desafiados com Eisbein, ou pernil de cordeiro/ovelha, ou currys indianos com grão de bico e leite de coco. Quais deles provaram? Quais deles só fingiram comer? (Vocês sabem quem são, seus sapequinhos)

Quantas reclamações fazemos da nossa vida entediante, sem antes provar uma moela sequer? Temos milhares de oportunidades de testar coisas novas, todos os dias, mas seguimos para o trabalho pelo mesmo caminho, vendo as mesmas ruas e talvez seguidos e seguindo os mesmos carros e motos. Qual foi o último amigo novo que você fez? Quando leu seu último livro? Que cidade nova conheceu, e quando foi isso? Em que aventura arrepiante se meteu, que não poderá se esquecer, e que contará a seus netos com toda a fantasia dos anos passados?

 

Todo dia é um potencial de descoberta, para respirar algo novo, ampliar os horizontes e reinventar a vida. Saia desta ostra e abra-para a vida – a vida anseia em se mostrar linda, bonita, cheirosa, gostosa e deslumbrante para você, é só você querer.

E coma moela.

 

Ps.: Eu comi moela, e sinceramente ainda prefiro camarão e fraldinha/vazio. Mas devo salientar que da próxima, comerei novamente. Pode ser um daqueles hábitos adquiridos, sabe? E eu PRECISO dar esta chance à moela. E a mim.

 

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