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PORQUE VOLTAMOS “MAIS CEDO” DO SABÁTICO

Yo soy de vivir y dejar vivir” me diz a argentina da Patagônia ao meu lado.

Numa dessas coisas do acaso, que só acontece a quem viaja, encontrei a argentina no meio do trem, descendo de Chiang Mai, na Tailândia. Ela, indo para Bangkok, nós, para Sukhothai. O mais engraçado ainda: no mesmo vagão!

Posso até pensar num filme: você e um amigo de infância estão lá na Rússia, andando na Transiberiana, porém em vagões diferentes e nunca se encontram. O filme passa o tempo todo mostrando como foram superamigos na infância, o presente que ele lhe deixou quando foi embora para outro estado com seus pais. O filme continua mostrando o hoje: o quanto vocês são legais e interagem com outras pessoas – e quão próximos estão – sem nunca se encontrarem.

Num trem de 10 vagões, teria sido facilmente assim – mas o acaso decidiu que não.

Minha amiga viajante Maria y yo
Minha amiga viajante Maria y yo

Tínhamos conhecido a argentina num outro país, mais de um mês antes. Estávamos no Vietnam, na cidade de Hué, tomando café da manhã, quando entra uma menina sozinha: bom dia, vocês têm quarto disponível?

No dia seguinte, enquanto esperávamos a monção dar uma trégua para podermos passear pela cidade, o dono da pousada nos juntou a ela e a um casal de brasileiros num mesmo carro.

Pronto, havia nascido uma amizade Mercosul em terras vietnamitas. Após um dia enfrentando chuva forte para ver os Mausoléus dos antigos reis do Vietnam, almoço com um suco de frutas que mais parecia um sorvete, trocamos Whatsapp com aquela promessa de nos encontrarmos dali para frente. O casal virou nosso companheiro de viagens, e nos encontramos na Tailândia duas vezes depois.

Com ela, mandei uma mensagem, sem resposta. Depois esqueci.

Entrando no trem, cheia de malas, Sara, urso de pelúcia no braço, olhei aquele rosto e ele me pareceu familiar. Ela também se assustou. Sim, era a argentina, no mesmo trem, no mesmo horário, no mesmo vagão, na mesma viagem.

Quais as chances?

Deixei as malas e aproveitei que tínhamos mais de 6 horas de trilhos para colocar o papo em dia. Nós havíamos trilhado um roteiro muito parecido, porém em datas diferentes. A nossa viagem, contudo, estava terminando – depois de Sukhothai, teríamos 3 dias em Bangkok antes do voo para casa. A dela, ainda no meio: estava indo tirar o visto para Myanmar.

Depois que as amenidades e roteiros foram compartilhados, o que sobra para duas mulheres viajantes conversarem enquanto a paisagem cruza a janela?

É, o que vocês pensaram: as lições da viagem.

Lá pelas tantas, ela me contou sobre a sua família paterna, que ama demais, mas que é muito apegada. Ela não pode ir à casa da avó, ou dos tios, sem ser recriminada por não ir mais. Não pode chegar na casa da avó sem ser recriminada por não ter chegado mais cedo. Não pode sair da cada sem ser recriminada por sair muito cedo.

É tanta recriminação que ela acabou se afastando. Ainda os visita, convive com os parentes e até os ama, mas tem ouvidos tampados para as reclamações. Não entra mais no jogo de culpa/perdão que sempre se estabelece nessas reuniões: a primeira roda de conversa é uma lamentação contínua por todos os que não puderam – ou não quiseram – estar ali.

Ela me diz que seus pais não são assim – já está há uns 6 meses na estrada, e é claro que sentem saudades, mas também apoiam o seu sonho de conhecer o mundo. Veja: ela vem de uma pequena cidade na Patagônia que mal e mal tem um sushi. O restaurante chinês é tão pé-sujo que nem em sua frente passa. E está extasiada com a comida destas partes do mundo – para quem nunca comeu apimentado, a comida que mais ama é justamente a que lhe faz chorar.

Seus pais entendem perfeitamente que esta é uma viagem de descobertas pessoais – e por isso a incentivam.

Ela também viaja sozinha, por escolha. Volta e meia encontra alguém que lhe parece interessante, e resolvem viajar juntos. Conheceu um americano e trilharam Halong Bay e Sapa no Vietnam. Com uma francesa fez uma viagem de moto – com direito a acidente duplo – pelas estradas esburacadas do Laos. E com um inglês estava viajando por Chiang Mai, até que percebeu que era a sua hora de seguir caminho.

Com tal inglês, reviveu a história da família paterna na saída.

Um dia, acordou cheia daquela pequena-vida que havia estabelecido para si com o inglês. Acordou e apenas disse a ele: “mañana, me voy”.

Ele, menos íntimo, expressou seu sentimento fechando a cara. Foi incapaz de dizer o que passava pela sua cabeça – mas a mudança de humor denunciava a cada segundo que não queria que a companheira se fosse.

Claro, se você fosse um menino inglês cheio de prisões internas, e encontrasse uma argentina livre, que estava correndo o mundo sem que ninguém precisasse lhe dizer onde ir, você também não gostaria que ela se fosse.

Contudo, estar ao lado dele, conviver com aquela prisão de forma e pensamento, era submeter a sua liberdade àquilo.

Se queriam comer, ela entrava no primeiro restaurante e sentava – quem já viajou por aquelas bandas sabe que, salvo raras exceções, todos os restaurantes terão a mistura curry vermelho, curry verde, salada de manga e mamão. Qualquer um serve, e quase todos tem o mesmo preço. Ele não: tinha que analisar minuciosamente dezenas de menus. Até que ela se cansava, entrava em qualquer restaurante, sentava numa mesa e fazia seu pedido – estava certa de que não haveria comida inglesa por aquelas bandas.

Comprar uma calça, também, havia sido um experimento de tortura: provou mais de 20 até se decidir. Um dia ela se cansou. Sentiu que foi bom enquanto durou e pt, saudações.

Livre, então apenas comunicou: “mañana, me voy”. Ele não gostou – porém, incapaz de verbalizar, apenas mudou a expressão.

Sentada no trem, o ar condicionado jogando um frio quase siberiano sobre nós – vai entender o que quer esse povo de país tropical – ela me diz: “yo no me quiero prender, ni que se prendan a mí. Le quería libre también, pero él estaba preso a mí. Y, al prenderse, se me prendió también”.

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Tchau, amiga!

Fiquei olhando para ela, e pensando no Fernando e eu. O que é um casal? Por que fica junto? Até que ponto um prende – ou solta o outro?

Nesta viagem, muitas vezes o Fernando me disse: eu não queria estar aqui. Vislumbrar esta viagem foi coisa minha – como já falei aqui. Ele é a pessoa que encoraja, apoia, acompanha e ajuda a realizar. Mas a visão, normalmente é minha.

Quando vejo algo, já imagino onde estou me metendo: viajar pela Ásia, a longo termo, com criança. Já havia ido à China, então tinha uma noção da coisa. Também vivo lendo e falando com gente que já esteve por lá. Eu aceitei um emprego pela simples possibilidade de viajar mais – sou curiosa do mundo.

O Fernando, que se inflama rapidamente com novas ideias, não é assim. Ele é do tipo que vai aprendendo conforme anda – não adianta ler blogs, guias de viagem, ouvir relatos de quem esteve lá. Ele é concreto, tem que viver para saber.

Mas ele também é de se jogar. Ele é inovador, gosta de coisas frescas e de pensamentos que o desafiem. Então pulou comigo na minha visão (um pouco sem saber onde estava pulando).

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Um banho na cachoeira Kbal Spean para esfriar o corpo do calor escaldante de Siem Reap, no Cambodia

Então, quando ele percebeu onde tinha se metido, não gostou. Ah, é claro que ele gostou de muitas coisas, mas ele não gostou de viajar tanto tempo. Enquanto eu teria continuado viajando pelos próximos 5 anos, por ele teríamos ficado nos 20 dias e voltado à rotina.

Eu deveria saber disso: o meu sonho de consumo no Brasil é alugar uma casinha simples na praia do Sono, em Paraty, e passar lá uns 15 dias. Pescar, cozinhar, tomar banho de mar, ver as estrelas, fazer fogueira, beber uma caipirinha, ler deitada na rede: me dá 15 dias disso agora.

7 anos de relacionamento, pelo menos 3 idas a Paraty nas costas e me pergunta quantas vezes fizemos isso?

É, já sabe a resposta, não? Por isso ainda é sonho.

O Fernando vê isso como: o quê? 15 dias parado olhando o mar? Nem pensar!

Quando íamos a Ubatuba, o negócio era conhecer todas as praias – são 92! – então era montar acampamento, sentar uns 10 minutos, tomar aquele banho de mar, desmontar acampamento, rumar a outra praia. Nisso, acredito que já conhecemos umas 20 praias.

A argentina me dizia: tem que deixar viver, e eu só pensava se estava deixando meu próprio marido viver.

Não tem certo ou errado nesta questão. Nós somos duas pessoas – e como tal, somos diferentes. Por termos formado um casal, obviamente temos similaridades, mas não somos cópia um do outro.

Ele, no afã de tentar coisas novas, foi viver o MEU sonho. Chegando lá, contudo, viu que aquele não era o SEU sonho.

Como acomodar desejos tão conflitantes numa viagem? Como seguir esta viagem satisfazendo o próprio sonho – mas não massacrando o do outro?

Por nenhum minuto me via sozinha (alguns podem me sugerir este rumo): desde que nos conhecemos, há pouquíssimas coisas que fazemos separados. Esta era uma viagem a ser feita em família.

Lá pelas tantas, quando estávamos na Tailândia há poucos dias, percebi: esta viagem não é só minha. Esta viagem é dele – e da Sara também. Não o estou deixando viver a sua vida se obrigá-lo a seguir. Então, compramos as passagens de retorno.

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Durante a volta por Mae Hong Son, desfrutando das curvas!

A partir desse dia, a vida mudou: ele se sentiu mais seguro, fez planos para o retorno, relaxou. Com isso, aproveitou com bem mais intensidade e, o mais importante, foi mais feliz. Ao ser feliz, Sara e eu tivemos ao nosso lado um pai e marido fenomenal, como apenas o Fernando sabe ser.

Ficamos, ao total, 111 dias.

Quando chegamos no Brasil, muitas pessoas disseram: mas vocês não iriam ficar um ano (seis meses, 2 anos, mais tempo – ouvi de tudo)? Apesar de nunca termos colocado um prazo, a expectativa era de que ficássemos mais (inclusive a minha).

Sabe, esta sempre foi uma viagem de autoconhecimento. Ela foi pensada para que nos entendamos melhor, para dar um basta na rotina, para desafiar os limites pessoais. Ela foi pensada para ser livre.

Aprisionar alguém a ela era cair no mesmo erro que eu tanto combato: criar uma caixa e colocar a pessoa dentro dela.

A caixa do Fernando é diferente da minha – assim como a sua, querido leitor e estimada leitora, não é igual a de mais ninguém, por mais que padre, pastor, pai, mãe, tio, avó, cunhado, marido, mulher lhe diga diferente.

Aqui fica a minha pergunta para você: você tem deixado as pessoas serem livres ao seu lado?

 

Ps.: Tenho uma confissão a fazer: eu também fiquei mais segura quando comprei a passagem de retorno. Estava livre da preocupação “quando voltaremos?”.

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6 comentários sobre “PORQUE VOLTAMOS “MAIS CEDO” DO SABÁTICO

  1. yo no me quiero prender, ni que se prendan a mí. Le quería libre también, pero él estaba preso a mí. Y, al prenderse, se me prendió también”.
    Lindas essas palavras…mas impraticável a dois!!! resposta fica no seu própio retorno da viagem que tanto planejou…

    1. pois é, Lúcia, eu vejo que para continuarmos formando um casal, em algum momento eu teria que ceder… consegui manter o moço por lá por 111 dias, e visitar quase 100% dos países que eu tinha sonhado (faltou a Indonésia e as Filipinas, mas puro erro de planejamento meu também) – ou seja, de minha parte tinha uma sensação de “dever cumprido”. não comentei no texto, mas havia também a questão do dólar explodindo naquela época, o que estava corroendo as nossas reservas, e não queríamos voltar para o Brasil com fundos muito baixos. por fim, acho que vimos uma coisa: podemos nos jogar em planos loucos e voltar. e nos jogar novamente quando quisermos 😉

  2. Parabéns Cristina, com essa sua atitude mostrou ser muito inteligente. Gostava de continuar a ler os seus posts por esse mundo fora ou mesmo por esse Brasil fora que de tão grande que é mais parece um Continente. Obrigada pela partilha. Fez muito bem resolver regressar, tenho a certeza que a sua atitude fortaleceu a vossa união, a vida é assim, feita de cedências. Um abraço.

    1. Olá, Anabela! realmente, ceder faz parte de formar uma união. pode deixar que os textos continuam, temos ainda muita coisa a contar: metade do Vietnam não foi, Camboja e Tailândia ainda vem por aí 😉

  3. Muito intenso tudo que você vive e expressa em seus textos. Exsuda verdade, no bom sentido de transparência consigo mesma, com seus valores e projetos. Não saberia responder sua pergunta, porque vivo um momento especial ao cuidar de minha mãe – então, pensando bem, não, a palavra liberdade não se pode colocar nesse momento em minha vida, por escolha também, por decisão. Não sei fazer as coisas medianamente, tudo também tem que ser do meu jeito, e o meu jeito é “eu resolvo tudo, deixa comigo”. Nesse gesto, eu fico presa a minha própria escolha e decisão. Enfim, viajo menos do que gostaria, e estou presa a uma situação mais do que gostaria também. Beijo, tudo de bom para você e sua família.

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