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ENCONTRANDO PAULO COELHO NO CAMBOJA

– O que você sabe fazer bem?

 – Ir atrás do que acredito.

Paulo Coelho, em Brida

 

“Foi o primeiro livro que li na vida – uma amiga me deu, e eu tinha que ler, não é? E ele mexeu comigo. Eu não sei bem o quê, mas parece que depois dele, algo mudou em mim. Ele fala de não viver apenas por viver, mas sim ter algum significado. Estranho, não? Agora quero ler outros livros deste autor.”

Toalha amarrada na cintura, a água da piscina ainda escorrendo do cabelo pelas costas, pés metidos em chinelos a milhares de quilômetros de casa, converso com a recepcionista do hotel em Phnom Penh. Ela devia nos ajudar a comprar uma passagem para Siem Reap, onde está o famoso Parque Arqueológico de Angkor, mas toda a conversa sobre ônibus, barco, dinheiro e horários parou quando vi um livro sobre a sua bancada.

Ela havia lido O Alquimista, do Paul Coelho. E está maravilhada.

Apesar de não estar alheia ao sucesso estrondoso que o Paulo Coelho tem fora do país, não imaginava encontrar seus leitores assim, facilmente, sentados numa recepção de hotel no Camboja.

Contive meu ímpeto brasileiro, demasiadamente brasileiro, de rebaixar o livro ao que a minha antiga professora de literatura chamava de Literatura de Banheiro – o conjunto das obras de Danielle Steel, Sidney Sheldon, Harold Robbin e afins.

Segundo ela, ele não teria outra finalidade que não fazer o tempo passar enquanto se espera a fisiologia entrar em ação.

Afinal, pensei, é verdade: o cara é lido aqui do outro lado do mundo, tem seu valor. Quisera eu também ser. Ele é o guru de muita gente que o mundo aclama, porque não seria aclamado pelo seu próprio povo? E, por fim, eu também li Paulo Coelho e me maravilhei.

Devia ter uns 14 anos, e passava pela fase mais mística da minha vida. Talvez o Brasil inteiro passasse, mas como não havia internet – ou ela não era acessível a mim – não tinha como saber com exatidão. Mas naquela época, uns 25 anos atrás, havia feiras místicas por onde passasse. Livros de Tarot vendiam como água (tenho um até hoje).

Quem não lembra das bruxinhas de chapéu pontudo carregando uma bola de cristal, que supostamente lhe trariam sorte para um, ou mais, aspectos da vida?

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Eu também, era a mística de plantão: lia tais cartas de Tarot (sem muita proeza, afinal acabei nunca decorando o significado daquela montanha de cartas realmente, mas minhas amigas gostavam da sessão “de grátis”. Parece que alguma coisa ou outra, eu acertava. Afinal, há sempre 50% de chance entre o ele te ama/ele não te ama), tinha meus rituais com cristais, acreditava (desconfiando) em gnomos (aliás, era fascinada por gnomos).

Era um mundo de fantasia, em que os livros do Paulo Coelho se encaixaram como uma luva. Comecei com Brida, O Alquimista, As Valkírias e devo ter terminado com Nas margens do rio Piedra eu sentei e chorei. Não tenho recordações de outros livros seus lidos nesta época, então devem ser estes.

Lembro que ler Paulo Coelho pela primeira vez era como ser acordado para um mundo cheio de significado. Você não estava aqui apenas para nascer e morrer, você estava aqui para viver. E viver englobava todo um mistério de conexão seu com o mundo, de entender quem se era, de buscar fazer a sua parte e não se desculpar por fazê-la.

É claro que uma mensagem assim apelava fortemente para uma moça, recém entrada na puberdade, que tentava entender o que acontecia à sua volta. Que tentava enxergar que futuro havia para si, afinal o presente não era lá essas coisas.

katsumi, make good art, paulo coelho, camboj, cambodiaLer Paulo Coelho, naquela época, era entender que havia sim um futuro que eu poderia construir, que se afastava de tudo o que naquela época era tão difícil. Um mundo em que roupa de marca, carro do ano, viagem para Disney, e todas as demais coisas que o dinheiro, que eu não tinha, comprava, eram apenas bobagens.

Devia ter um significado maior no mundo do que aquele mundo fútil que me cercava no colégio. Em busca de uma educação “mais forte”, estava convivendo com a face lamentável do sucesso: os filhos mimados (ou abandonados) de pais bem-sucedidos (apenas) financeiramente.

O colégio era o tabuleiro de todas as frustrações, medos, vazios e ansiedades deste grupo de adolescentes, que usava de seus peões da forma que lhe conviesse, para alcançar algum tipo de prestígio, poder, fama. Ou pelo menos para tirar a cabeça de dentro da água turva onde estava e respirar um pouco.

Entrar no mundo mágico destes livros era escapar de tudo isso para um lugar em que apenas eu, e o que eu era, eram importantes.

Com a saída do colégio, tudo muda. Na faculdade, tão grande, não importava muito a roupa, o sapato, o carro. É claro que havia gente rica, gente pobre, gente arrogante, gente humilde – era uma universidade pública e, apesar da fama, tinha gente de todo o tipo. Nessa mistura de gente, não tem muito espaço para futilidades. Foi entrando o Cálculo, a Física, o mundo, e o misticismo foi ficando para trás, até um ponto em que nem me lembrava mais qual tinha sido o último livro que havia lido sobre o assunto.

O Tarot, esquecido numa gaveta, nunca mais foi aberto. Com o passar do tempo, descobri que para as coisas da vida são necessárias duas frases apenas: tudo passa e tenha paciência. Prever o futuro (ou tentar fazê-lo) era desnecessário – quando não, imprudente. O futuro existiria, e estava sendo construído a cada dia, pelas minhas ações e decisões, por menores que fosse, mesmo sem eu ter consciência disso.

É, aquela garota de 14 anos que leu o Alquimista nunca teria sonhado que um dia estaria pingando na recepção de um hotel em Phnom Penh, enquanto escutava a recepcionista se maravilhar com o autor da sua adolescência. Angkor Wat somente entraria no seu radar muitos anos depois – e muitos outros anos passariam até que ela vislumbrasse que a possibilidade de vê-lo com os próprios olhos era sua também.

Quando tinha 14 anos, meu ápice era finalmente conhecer uma praia de Santa Catarina – nem o Nordeste estava no radar ainda. Tinha ido a Laguna com uns 12 anos, mas só de passagem, e no inverno. Queria mesmo era me jogar naquelas águas transparentes, que só via em revista ou na TV, e engolir o mar de uma vez só, para nunca mais perder.

As decisões que fui tomando no caminho, as pequenas escolhas do dia-a-dia, quais amizades nutrir, aceitar ou não as desculpas de um namorado irresponsável, que emprego escolher e por quanto tempo aguentá-lo, quais livros ler, que filmes ver no cinema ou em casa – elas foram formando a teia de acontecimentos que desembocou na versão molhada com água cambojana de mim.

Aos 14 anos, contudo, nada disso era sequer sonho. Medrosa de que não pudesse alcançar sonhos mais visionários, a mente apenas sonhava com o mundano – uma praia de Santa Catarina. Já era sonho suficiente naquela época.

A garota cresceu, seu mundo se expandiu e os sonhos também. No caminho, vi gente ao meu redor sonhar muito mais alto que eu e alcançar o que sonhava. Vi também gente sonhar bem baixinho – e ser feliz com o seu sonho alcançado. Não importava muito de onde a pessoa sonhava: o que fazia a diferença era o tamanho do sonho.

Parece que quanto mais alto sonhamos, mais alto voamos.

Olhando aquele livro sobre a recepção do hotel no Camboja, me dei conta de uma coisa: o limite sempre havia sido eu mesma. Não era pai, mãe, colegas, dinheiro, cidade, educação, quem me dizia onde estava o limite do que eu poderia alcançar.

Eu mesma me colocava este limite.

No final das contas, o Paulo Coelho estava mesmo certo. Há um significado na vida, muito maior do que podemos ver se apenas acordamos, comemos, trabalhamos, dormimos.

Certas trajetórias não nos parecem óbvias a princípio, mas depois de percorrido o caminho, ele nem é mais tão tortuoso assim.

Afinal, quem diria que, no meio de um período sabático, eu teria o luxo de um banho de piscina?

 

 

Ps.: a lindíssima imagem que ilustra este post foi feita pela artista Katsumi Gushiken, ilustradora da página Make-GoodArt. Ela é uma paulistana que largou uma vida corporativa e embarcou numa viagem sem volta programada pela América Latina, mais ou menos na mesma época em que saímos para o nosso sabático.

O Zen Pencils nos juntou e aqui estamos fazendo um projeto em colaboração. A Katsumi expressa em desenhos o que eu venho expressando em textos: toda a mudança que acontece dentro de nós quando viajamos.

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Ah, e ela trabalha por encomenda – que tal ter uma pessoa tão talentosa ilustrando o seu próximo projeto?

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