CHENGDU – UM DIA COM OS PANDAS GIGANTES E COM A MODERNA CHINA “ANTIGA”

Chegamos em Chengdu cansados, após uma viagem de 9h a 70km/h a bordo de um ônibus lotado. Éramos os únicos estrangeiros de plantão, condição que estava prestes a terminar conforme íamos descendo para o Sul da China.

Numa oferta incrível, conseguimos um quarto – sem janelas – no Leeden Hotel: um hotelão 4 estrelas próximo a uma das zonas de pedestres de Chengdu. Até nos assustamos quando o táxi nos deixou por ali: não estamos acostumados com mordomia. Mas, pelo mesmo preço que pagamos no hostel em Xi’an, que era bom, porém simples, tivemos um quarto grande e confortável, café da manhã farto com café – essa iguaria na China – à vontade, e um box ao redor do chuveiro.

Quem já viajou para estes lados do mundo – e não fez o tour dos hotéis 5 estrelas – sabe do que eu estou falando. Eles se chamam “wet rooms”: um banheiro sem box. Você toma banho, amigo e amiga, e o banheiro inteiro molha. Pelo que vimos em algumas casas em que entramos, é coisa cultural, não existe box na casa das pessoas também.

O banheiro por vezes é imenso: mas box, nada. Então, chegar no Leeden e encontrar um lindo box decorando o banheiro foi genial. Quem se importa com janelas quando tem um box lindinho para chamar de seu?

Chegamos, trocamos de roupa e seguimos à rua para almoçar. Dizem que a primeira impressão é a que fica – coisa com a qual eu discordo fortemente – então Chendgu se mostrou limpa, rica e organizada. Entre tantas opções, acabamos comendo mesmo no MacDonald’s (alento de viajante cansado de guerra que não aguenta mais decifrar menu em mandarim).

No dia seguinte, o passeio que prometíamos à Sara desde que saímos do Brasil: os pandas gigantes. Como acordamos um pouco mais tarde do que o devido, e comemos um pouco mais do que o recomendável, acabamos indo de táxi. Quem já leu alguma coisa sobre os pandas, já viu a recomendação: os bichinhos são bem vagarosos. Só se mexem quando comem (e olhe lá). Como comem pela manhã, chegar cedo é a melhor recomendação para pegar um pandinha mais esperto.

reserva panda china chengdu
Entrada da Base de Pesquisa dos Pandas Gigantes em Chengdu

Era outubro, fora do verão, mesmo assim um dia quente (porém bem suportável). O parque é grande e arborizado, cheio de flores e recantos. Os pandas ficam em locais que tentam imitar seu habitat natural – hoje eles quase não existem mais na natureza, de tão caçados que foram no passado.

São diversos recintos espalhados pelo parque, alguns bem grandes e cheios de “brinquedos” para os pandas. Eu não sou NADA fã de zoológicos e dificilmente visito um em viagem (o último foi há uns 3 anos, em Itatiba) – mas aqui, ao menos pela imagem vendida, estamos numa estação de proteção da espécie. Existem outros parques espalhados pela China, mas este próximo a Chengdu é um dos mais famosos.

panda jovem brincando chengdu
Os pandas começam a brincar – se não fossem os pandas pequenos, veríamos apenas pandas grandes paradões, comendo seu bambu!

É muito difícil para mim imaginar que um panda, com todo aquele pelo e gordura corporal, goste mais de Chengdu (uma cidade quente ao nível do mar) do que de Jiuzhaigou (fria e nas montanhas), de onde muitos foram removidos. Não me admira que, submetidos aos flashes intermináveis dos fotógrafos de todas as nacionalidades, os pandas não se reproduzam com frequência (e a panda fêmea entra em período fértil apenas 2 a 3 dias por ano! Isso que eu chamo de método contraceptivo eficaz!).

panda gigante chendgu brincando
Esses jovens… tsc tsc tsc

Se fosse eu, também preferiria ficar comendo meu bamboo numa boa, as partes viradas para o céu, apenas relaxando.

Panda gigante em Chengdu
Comendo bambu e relaxando na sombra, tranquilão…

Mas estamos aqui, as reclamações de uma viajante brasileira são nada frente à fascinação que estas lentas criaturas exercem sobre crianças e adultos de todos os continentes. Então sigamos: mais à frente, uma aglomeração sempre indica que pandas pequenos guti-guti estão em demonstração.

De agosto a novembro é época de pico no parque: pandinhas nascem para deleite dos turistas ansiosos por novidades. Confesso que ver aqueles pequenos seres do tamanho de um bicho de pelúcia da Sara foi um momento muito especial – só gostaria que eles pudessem nascer como manda a Mãe Natureza (no meio de um ninho, num tronco de árvore, longe de turistas afobados, incubadoras prontas para tirá-los das mãos de suas mães, gente de máscara, luvas e roupa azul. É, pandas gigantes sofrem do mesmo mal que humanos – a intervenção hospitalar no parto).

panda gigante, chengdu, panda pequeno
Pandinha com cerca de 1 mês – já com bastante pelo.

Além dos pandas gigantes, o parque também aloja a maior quantidade de pandas vermelhos. Criaturas mais espertas, menores, com quem você não é recomendado brincar. Eles podem ser agressivos!

panda vermelho chengdu
Agressivo, eu? Nem te ligo, cara pálida!

O parque é bem estruturado e os banheiros nada do que você imagina (ou está acostumado) na China: grandes, limpos, com sabonete líquido (milagre!). Carrinho de golfe (que não usamos) percorrem-no de cima a baixo (por uma taxa), amenizando a caminhada.

Apesar de ser “alta temporada” no parque, posso considerar que tivemos sorte. Se você ler as recomendações do Tripadvisor, verá diversas reclamações dos turistas falando sobre superlotação de outros turistas (é, sim, mais um caso do roto falando do esfarrapado) – olhe as datas e verá que são os turistas do verão do hemisfério norte (julho/agosto). Verão, amigo e amiga, é quente, úmido, lotado. Os pandas se moverão menos ainda. E você seguirá em fila indiana com chineses para todos os lados por onde andar no parque.

panda gigante em chengdu
Tá olhando o quê, cara-pálida? Tô aqui, de boas, e você vem atrapalhar meu lanche?

Quando estávamos já nos encaminhando para a saída, uma chinesa me aborda. Gostaria de responder a um questionário sobre o turismo em Chengdu? Tudo bem – só que ela não me avisa que são mais de 30 perguntas, no seu tablete. Sento num murinho, procurando uma sombra, enquanto respondo às perguntas mais reveladoras da cultura chinesa que poderia encontrar. O questionário quer entender quem são os estrangeiros que chegam a Chengdu – um esforço muito interessante da autoridade de turismo local para conseguir se posicionar.

A questão é que é um questionário chinês – e olha o mundo do seu ponto de vista. Para a questão “como você se informou sobre esta viagem e Chengdu?”, as opções eram “feiras de turismo”, “livros de viagem”, “página da prefeitura de Chengdu” e por aí vai. Nenhuma menção a “blogs de viagem” – nem sei se os chineses sabem o que é isso. Toda a vez que eu mencionava que escrevia num “travel blog” para o pessoal dos hotéis, o olhar era de dúvida. Travel blog? O que é isso?

criança menina panda
Sara com sonho realizado: ela e um panda 😛

Coloquei a sugestão lá no “outros” – uma vez que os meus maiores contribuintes para esta viagem foram o Ásia de Mochila, o Adventures around Asia (de uma americana que vive na China) e o Living If (um casal que viajou 3 anos sem parar pelo mundo). Não sei você, mas eu gosto muito de ler sobre experiências pessoais quando estou decidindo o que fazer numa cidade.

Lá pelas tantas o questionário me pergunta qual é o logo da cidade de Chengdu. É claro que eu marco um que tem um pandinha fofo – apenas para descobrir mais tarde que é este aqui ó:

Selo da Cidade de Chengdu, para os desavisados, inspirado num objeto encontrado em escavação em Jinsha

Na saída, decidimos ir à estação de trem comprar os tickets para o dia seguinte. Nesta hora, obrigada Trip Advisor: como tinha baixado o conteúdo de Chengdu, pude ver que o amado taxista nos levava à estação errada.

Esperteza? Talvez. Mas existem duas estações ferroviárias em Chengdu e ele estava nos levando à outra, mais antiga. Percebemos razoavelmente cedo e fizemos ele mudar de rumo.

A estação leste de Chengdu é muito moderna, imensa, bonita. Chegamos ao guichê para comprar os tickets sem qualquer informação escrita em chinês, na cara e na coragem – eu tinha somente o número dos trens que queria pegar. O primeiro atendente não estava entendendo nada, mas chamou uma menina que falava algo de inglês e deu tudo certo.

estação trem leste chengdu prédios modernos
Estação de Trem Leste de Chengdu – colocando no chinelo todas as demais 🙂

Tickets na mão, pegamos o metrô para a estação central – para então caminharmos até a rua Jinli. No mapa do hotel, parecia uma caminhada curta – talvez umas 5 quadras?

Ledo engano.

Chengdu é enorme! O mapa do hotel era uma simplificação que mostrava apenas as principais atrações. Até tentamos pegar um táxi, mas simplesmente nenhum parava (será que tem medo de pegar estrangeiros? Não sei, mas em Chengdu houve esta dificuldade com os taxistas).

Então, enquanto caminhávamos, vimos um pouco de tudo. Crianças saindo da escola com suas mochilas, senhoras de idade dançando na praça ao som de música pop, monges andando para o Templo (um sinal de que finalmente estávamos chegando).

A rua Jinli foi remodelada em 2004 de forma a mostrar aos chineses como era a vida no passado. Meio que como a Muralha da China, ela não é uma rua conservada do passado – ela é uma rua refeita completamente lembrando o passado. Parece que ali realmente havia uma rua de comércio de tecidos desde 200 a.C.

Entrando na rua Jinli, bandeiras para todo o lado
Entrando na rua Jinli, bandeiras para todo o lado

(Um à parte: durante a Revolução Cultural – que de Cultural só tem o nome, não se engane – boa parte da antiga cultura chinesa foi demolida pela população, instigada, a partir de 1966, por Mao a romper com os “Quatro Velhos” – velhos costumes, velha cultura, velhos hábitos, velhas ideias – e abrir espaço para o novo. Templos, casas antigas, estátuas de Buda, Confúcio e tudo o mais que representava a antiga China estava na mira dos Guardas Vermelhos. Não espanta que tantas “reconstruções” sejam necessárias hoje para mostrar o que era a China no passado. A Muralha da China e a Cidade Proibida apenas sobreviveram porque o Premier Zhou Enlai colocou o exército para protegê-los. Líderes populistas: fazem do povo sua massa de manobra).

casa de chá verde vermelho chengdu china
A China “antiga” que quase não existe mais… apenas nas recriações mirabolantes do governo local

Os chineses parecem não se preocupar muito com o jeitão Las Vegas/Disney da coisa. Há uma certa ingenuidade no modo em que eles fotografam as coisas mais minúsculas aqui e ali, se espantando e cobrindo cada canto de atrações que, em outros lugares, passariam por bregas – ou kitsch, para usar o termo mais empregado.

rua jinli chinesa antigo china chengdu
Um trechinho da rua Jinli, em Chengdu

Mesmo assim, a rua Jinli é um bom lugar para passear com alguma sombra, tomar um chá – caríssimo – e comer comida das janelas oferecendo todo tipo de coisa. Inexplicavelmente – ou explicavemente, porque estamos em Chengdu, no próspero estado de Sichuan – o banheiro público é limpo (é também o único que nos aventuramos a entrar em toda a viagem, todo os demais não dava para passar nem na frente, tão forte era o cheiro de urina).

comida na rua jinli Chengdu
A província de Sichuan é conhecida pela comida apimentada – e esse espetinho não deixou dúvidas de que estávamos no lugar certo!

Na hora de sair, táxi. E daí, amigo e amiga, concorre com os chineses para pegar um. Este é o país deles e ninguém tasca, muito menos um táxi, essa obra maravilhosa da engenharia moderna. Após um pouco de briga (sem sucesso) com impetuosas senhoras de 60 anos, embarcamos. Os táxis em Chengdu são muito baratos, então uma corrida de quase meia-hora saiu algo como 15 reais.

amuleto sorte chinês vermelho
Boa sorte para todo mundo! (é só pagar uns 20 yuan 😛 )

Eventualmente pegamos um, e o moço percorre tranquilamente Chengdu até chegar ao hotel. Eu ainda tenho pique, então pego a mão da Sara para fazer uma massagem na sala de massagem que fica ao lado do hotel. O Fernando não aguenta mais nada, então só vai tomar um merecido banho e descansar.

E sobre a massagem: rendeu tanto que é história para outro post!

 

Eu quero saber de você: curte zoológicos e lugares em que os bichos são a principal atração? Conta aqui nos comentários qual o lugar mais bacana que conheceu!

 

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3 comentários sobre “CHENGDU – UM DIA COM OS PANDAS GIGANTES E COM A MODERNA CHINA “ANTIGA”

  1. Lindo texto e bela reflexão. Viajei no texto.Gostaria de saber o que a amada Sara achou dos pandas. Aliás poucos são os que vivem na natureza, porque ainda são caçados, apesar da proibição. Em um zôo, mesmo não sendo o melhor, é uma maneira de preservação.
    Estava esperando esse post.
    Beijos carinhosos aos três.
    Saudades. Mas aproveitem muito.

  2. A última vez que fui num zoológico foi em Córdoba na Argentina em 2008 e foi pavoroso. Condições péssimas, lugar bem mal cuidado. Não tive coragem de ir no de Buenos Aires. Depois disso, atrações com animais nunca mais me interessaram. Já ouvi falar bastante deste centro de Chengdu, quem sabe quando for à China não me anime a visitar?

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