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ANSIEDADE – MATANDO ESTE MONSTRO SILENCIOSO

A ansiedade é a maior assassina do amor. Ela cria as derrotas. Ela faz os outros sentirem como você se sentiria se um homem se afogando se segurasse em você. Você quer salvá-lo, mas sabe que ele irá estrangulá-lo com o seu pânico.

Anaïs Nin.

 

Estou passando em Heidelberg, cidade ao sul de Frankfurt, na Alemanha, famosa pela sua universidade. Um clima estudantil, casas antigas com ruas ainda mais antigas e um Castelo fazem a sua fama no mundo. Milhares de turistas chegam de todas as partes do mundo para se sentirem vivendo um sonho romântico do passado.

Na encarnação passada, estive aqui. Reencontrando minha irmã que estava estudando na Europa e que não via há quase um ano, e um amigão alemão de longa data. O encontro em Heidelberg era a culminação da fraternidade, ponto alto de uma viagem a trabalho bem-sucedida na Alemanha.

Ficamos, minha irmã e eu, semanas decidindo para qual cidade ir: pegar um cruzeiro no Reno e tomar vinho? Descer até Schwäbisch Hall? Ir a Colônia ou Koblenz? Decidimos por Heidelberg, ponto médio de onde estávamos e onde o amigo vive. Encontramo-nos na estação e seguimos a pé pela cidade, até o Castelo.

Castelo de Heidelberg flores brancas
Castelo de Heidelbeg.

Hoje, tenho lembranças muito vagas da cidade. Sei que havia um Castelo, com uma muralha onde ventava muito. Um pátio interno ensolarado com mesas nos cafés. Lojinhas bacanas na rua, um funicular antigo e charmoso para subir até o monte e ver a cidade do alto.

Quase não lembro de mais nada. Tamanha era a ansiedade circundante naquele dia.

Uma situação trabalhística havia surgido no dia anterior. Algo havia sido dito que não poderia ser dito. Algo havia sido escutado por quem não poderia escutar – alguém havia ido tirar satisfação com quem não deveria ter dito o que disse. E quem disse o que não deveria, por acaso, era superior a mim – e não gostou nada do disse-me-disse.

Ansioso, começou a bombardear meu celular corporativo – praga dos tempos – com e-mails questionando por que não estava voltando ao Brasil no mesmo dia em que ele, diligente, esforçado, exemplo, sem interesses próprios, voltava. Por que eu havia decidido voltar no domingo, e não na sexta? Por que passar o final de semana na Alemanha?

Realmente, por quê, não? Não há atrativos na Alemanha.

O assunto principal, contudo, não estava sendo tratado. O bombardeio era apenas uma forma velada de atacar quem se achava ser o problema em questão. O problema não era ter falado o que não devia. Isso era irrelevante. O problema era isso ter sido escutado por quem não poderia – e eu ter sido o link encontrado entre ambas as partes.

Percebi o (meu) erro imediatamente, mas não havia voltar atrás. Mal sabia eu que “coisas que não podem ser ditas” viraria a partir dali minha maior preocupação. Será que posso falar à minha colega que teremos evento no final de ano? Posso postar esta foto no Facebook? Tenho permissão para dar uma palestra?

Para quem nunca pediu benção para pai e mãe, tarefa árdua. Monitorar o que se diz, e pedir permissão para dizer, nada bom.

cidade heidelberg dia nublado beira rio
No horizonte, apenas nuvens. Heidelberg, Alemanha

Naquele dia, em Heidelberg, contudo, nada disso estava no horizonte. Tudo o que eu sabia é que a cada dois minutos chegava um novo elo de uma bate-e-volta de mensagens. As mensagens já formavam uma corrente imensa, sem fim, sem pé, sem cabeça, sem meio.

Uma caça às bruxas numa cidade medieval alemã. O roteiro não poderia ser mais apropriado para o ambiente.

Nem preciso dizer que a ansiedade – minha, dele – arruinou o dia. O que era para ser um grande encontro de almas, uma reunião das pessoas mais legais do planeta, tornou-se um estorvo. Tudo o que eu queria, naquele dia, era sair correndo dali, pegar o avião mais próximo, de preferência em Heidelberg mesmo, e resolver aquela pendenga o mais rápido possível, cara a cara, livrar-me daquilo e partir para outra.

Havia sido uma pessoa bem ansiosa na vida. Na adolescência, pé que era um leque. Se conseguisse convencer os pais, saía sexta, sábado, domingo. Tamanha era a ansiedade de sair, ver o mundo, crescer e virar adulta. Arranjar um namorado também estava no mapa mental.

Quando fui morar em Jundiaí, essa ansiedade me matava. Resolvi fazer análise para me livrar de uns demônios e, no encalço, colocar este monstro para adormecer. Funcionou. Depois de um tempo conseguia ficar na fila do banco abstraindo. Ou esperar calmamente em uma mesma empresa por 8 anos, até que oportunidades bacanas surgissem.

O nascimento da Sara fez voltar boa parte desta ansiedade. Ao invés de dormir pelos cantos de tão cansada, eu não apagava. Ansiosa, ficava matutando que em breve ela acordaria – o que me trouxe noites e mais noites de insônia.

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O Castelo de Heidelberg, Alemanha

Mas nada foi mais eficiente em despertar o monstro da ansiedade do que esta experiência em Heidelberg. Ela era apenas o dedo minguinho do que iria que iria se levantar mais à frente, magnânimo sobre mim, sempre à espreita para acelerar o coração, tirar a mente do foco, impedir que qualquer trabalho mais aprofundado fosse conduzido.

É apenas levemente reconfortante saber que grandes mentes também pertencem ao clube dos ansiosos. Obviamente ansiedade não é condição para ser uma, então o conforto reside apenas na contemplação de que mesmo grandes mentes não conseguiam se livrar desse jugo.

Num excelente livro sobre a ansiedade, com a própria como tema de fundo, Scott Stossel analisa os diários e cartas de Darwin, que passou mais da metade da sua vida lutando contra uma doença desconhecida, que causava vômitos, diarreia constante, flatulência, insônia, eczema, vermelhidão, palpitação, dor e melancolia. Há centenas de anos médicos estilo Dr House se debruçam sobre os sintomas de Darwin.

Quando os sintomas acabavam? Quando parava de trabalhar e ia para as Highlands escocesas caminhar ou cavalgar. Típica reação da ansiedade.

Em estado ansioso permanente, não somos nós mesmos. Respondemos qualquer coisa que vem à mente, e pensamos continuamente que precisamos fugir.

Quem vive ansioso é inimigo do tempo – ao invés de saborear as horas que faltam para a viagem ao lado da família, bate o pé ligeiro no chão e perde-se em milhares de pensamentos estranhos.

Já está vivendo um futuro que é irreal – pois o futuro sempre é futuro, o único tempo real é o presente – ao invés de fazer-se presente entre os seus quando existe esta possibilidade.

O ansioso que espera não celebra o tempo que resta, e sim reclama do tempo que falta.

 

COMO CONTROLO A ANSIEDADE – SENDO UMA PESSOA MEGA ANSIOSA

Um ansioso precisa encontrar um ambiente que não aperte seus botões. Por mais auto-controle que desenvolva, com o colega certo, com a empresa certa, com o marido certo, com o filho certo, ele viverá uma vida miserável. Sempre arisco, à espera do próximo golpe que o colocará em estado de atenção e fuga.

Sair daquela situação trabalhística foi como tirar uma bola de ansiedade de dentro de mim. Com a mão. Reduzir o stress trouxe várias consequências benéficas – comecei a dormir sem interrupções, minhas unhas ficaram mais fortes, minha paciência voltou ao lugar de onde veio.

Acontece que eu sei que este monstro não morreu, apenas dormiu. Então, tem que haver formas de lidar com ele quando acorda. Outros superiores virão. Vôos serão perdidos, bolsas de máquina fotográfica também, hotéis não terão nossa reserva. Para uma pessoa ansiosa por natureza, situações estressantes parecem estar à espreita, prontas dar um susto na desavisada.

Quando o coração acelera, gosto de observar as formigas. Isso mesmo, as formigas. Olho para elas e sei que o mundo continua, apesar do quer que tenha acordado o monstro da ansiedade. Carregam suas folhas mais pesadas que si mesmo, constroem seus ninhos, picam pessoas – tudo segue, estando você bem ou não.

Olhar as formigas é contemplar a organização que se desfez em mim. Geralmente, se fico olhando por um tempo suficiente, recobro meu centro e consigo seguir em frente.

Não precisa ser apenas formiga. Qualquer outro ser que siga sua vida apesar das minhas angústias resolve a coisa: passarinhos, peixes, grilos. Tanto faz.

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O rio também. Passa incólume, sem se importar com nossas crises, amores, surpresas, dificuldades. Ele apenas passa.

Olhar as formigas é contemplar a organização que se desfez em mim. Geralmente, se fico olhando por um tempo suficiente, recobro meu centro e consigo seguir em frente. Como Alan Watts sugere, olhar as formigas é sair do estado de antecipação do futuro, no qual a mente tem consciência dela própria, e voltar à consciência do presente, onde o que acontece é apenas o ir e vir das formigas.

Neste último voo, quando pegamos turbulência e o coração pensou que dali não sairíamos vivos, fechei os olhos e disse a mim mesma que estava em um carro. Que as batidas eram apenas buracos na rua. Disse para mim: acalme-se. Relaxe. Entrei em uma meditação de 2 horas.

Claro que nada disso funciona se eu estiver muito desperta – então estar bem cansada antes do voo começar ajudou a controlar a besta. Praticar algum exercício físico que cause fadiga também é um excelente calmante. Cansados, não temos tempo para essas flutuações mentais em busca de um futuro não conhecido.

O cansaço e a meditação funcionaram. 2h de turbulência e consegui passar sem gritos, sem mão suada, sem ninguém para segurar a mão.

Outra coisa é desviar a mente. Se a mente desfocar e voar livre para outro lado, a sensação desgastante de ansiedade também passa. Cada um tem seu modo – para mim funciona bem ver um filme, sentar para brincar com a Sara, cantar uma música bem alto, conversar com uma amiga.

Adoro ler – mas não me ajuda a controlar a besta-fera. A mente é esperta demais, engana os olhos dizendo que está lendo, mas na verdade continua pensando no assunto estressante. Quando vejo, terminei um capítulo e nem faço ideia do que se tratava – pensei apenas no que me afligia.

Para a Sara, que é pequena ainda e está aprendendo o auto-controle, eu respiro junto, contando até 10. Recentemente, chegamos num hotel às 23h, para sair no dia seguinte às 7h. Ela não conseguia se acalmar e me pediu: “mamãe, respira comigo?”.

Foi o suficiente para dormir.

Tonel no Castelo de Heidelberg, Alemanha. Último recurso para os ansiosos 🙂

Toda situação por que passamos tem um potencial de aprendizado – é somente a questão de escolher se queremos aprender com ela, ou passar incólumes. Esta em Heidelberg me mostrou algo que eu não quis ver à  época: aquele não era o local para mim.

Mais tarde, eu olharia para trás, pensando naqueles dias, e veria que eram apenas os primórdios de tempos mais difíceis. O que em Heidelberg parecia o ápice do stress era meramente uma pequena elevação no horizonte.

Quase todas as situações carregam em si, também, o seu próprio desenrolar. Se formos observadores o suficiente, poderemos prever o comportamento predominante de alguém que recém encontramos com base nas pistas que ele ou ela deixa. Se bate o pé ansioso. Se toma muito – ou pouco café. Se responde rápido ou mastiga as respostas. Se ri de forma solta ou esconde o riso atrás das mãos.

Todos os nossos mínimos comportamentos – e os dos outros – são pistas do futuro. Como disse Confúcio: todo assunto tem raízes e galhos.

Perceber uma situação ainda em seu princípio, analisar suas causas e entender suas consequências: este foi o meu aprendizado daquele dia.

Ah, se ao menos o tivesse usado na hora certa…

 

Ps.: Quer mais técnicas? A Universidade Nacional Australiana tem uma página com 10 métodos em três agrupamentos distintos: “excitação física”, “tensão, stress e medo” e “a angústia mental de ruminar”.

 

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