VIAJANDO PARA BEIJING COM CRIANÇA

É nosso último dia de Beijing. Amanhã, pegamos as malas e rumamos mais ao sudoeste, para a cidade de Xi’an, antiga capital da China. Lá, onde os Guerreiros de Terracota foram encontrados em 1974.

Ficamos 9 dias em Beijing e, destes, aproveitamos realmente 8: a primeira noite nos deixou tão cansados que basicamente o que fizemos foi trocar de hotel e dormir à tarde.

Um dia desses no trem, encontramos um casal de brasileiros. Aliás, encontramos com eles 2 vezes, em dias diferentes! Era meio da tarde e estávamos voltando exaustos para o hotel – eles ainda estavam indo ao Templo do Céu.

Ontem, enquanto o Sol ainda aparecia sobre os telhados dos prédios da Praça Tianmen, e rumávamos para o hotel, fiquei pensando naqueles dois. Em como esta viagem é tão diferente daquela que fizemos ao Peru, sozinhos, e também diferente da viagem que fizemos no ano passado para a Itália, com a Sara de 3 anos.

A Sara tem 4 anos agora. E isso mudou tudo.

COM 4 ANOS ELA JÁ SABE O QUE COME – E O QUE NÃO COME

Desde que saímos do Brasil, comida tem sido a frente de batalha dela conosco. Na Alemanha, era resolvido com doses massivas de leite. Aqui na China, TEM LEITE, mas é caro (o TEM LEITE em caixa alta é para a família, que se apavorou com a informação de que aqui não teria). Então ele é limitado à manhã e à noite.

E a comida daqui não é nada que ela conheça. Então estamos relaxando um pouco, dando a ela o que for que ela coma: nem que isso seja salgadinho, bolacha recheada. O Fernando cortou a Coca-Cola e isso começou a ajudar: ontem comeu uma salada de pepino japonês deliciosa e um porco agri-doce no nosso restaurante favorito. No dia anterior, comeu bastante massinha de uma vendedora de rua – aliás, que gostosuras saiam daquela barraquinha.

comida chinesa couve sopa noodles

A saudade do Brasil ela expressa pela comida: só quer saber de arroz e feijão misturado (aqui tem muito arroz, né? Mas ela não quer comer puro…) e carne. Sempre pedimos um prato de carne para ela. E hoje descobrimos – enfim – uma uva que ela aceita.

comida chinesa espetinho carne beijing

E a fome, o que faz? Faz comer uma fruta que nunca viu na frente, no alto da Muralha da China, oferecida pelo nosso novo amigo chinês.

A fome, nossa velha aliada.

BEIJING NÃO É LÁ MUITO ACESSÍVEL

Escadas abundam: para entrar nas estações de metrô, para sair, para trocar de linhas. Por onde você olha tem uma escadinha para manter a forma. Deve ser alguma homenagem à Grande Muralha, vai saber. Fico me perguntando como fazem outras mães (aliás, vê-se bem poucos carrinhos por aqui, e muita mãe, pai, avô carregando a criança no colo) e como fazem os cadeirantes. Não vi um único cadeirante nestes dias – onde estão? (Só porque escrevi isso,
hoje vi mais de 3 cadeirantes).

Dos parques que visitamos, o mais preparado para a acessabilidade é o Parque do Céu. Tem rampas em “quase” todas as escadarias. Não tem rampa, contudo, para subir até o Templo principal, e algumas portas tem aquelas molduras no chão, que você – e o carrinho – precisam pular.

 

MAS CRIANÇA ATÉ 1,2M NÃO PAGA E TEM PREFERÊNCIA

E isso vale para entrada de museu, parque, palácio, passagem de ônibus, de metrô – vale até para a passagem de trem de longa distância. No ônibus que pegamos para Huairo ver a Muralha, ela não pagou – e sentou sozinha no seu lugar.

ônibus indo para muralha da china
Nada mal o ônibus, não?

Para Xi’an, preferimos não arriscar: compramos uma passagem para ela, pois quem aguenta 20kg no colo por 5h?

trem criança china metrô beijing pequim
Sara e seu bilhete de metrô #not

No metrô lotado – que encontramos muito raramente, e apenas nos horários de pico – era só se aproximar de um banco que alguém se levantava para ela sentar. E nem precisava ser naqueles assentos dedicados para crianças. Uma pessoa sentada em qualquer lugar do metrô cederia seu lugar a ela.

 

AQUI NÃO TEM PRACINHA

É um fato: fomos em alguns parques. Andamos por praças. Cruzamos a cidade inteira. Alguma pracinha deveria ter aparecido nessas idas e vindas – mas não, nenhuma. Vimos duas praças com equipamentos de ginástica – mas escorregador, necas.

templo yonghe criança escorregando beijing china pequim
aproveitando o “escorregador” do Templo Yonghe

A Sara, acostumada com o bem-bom da Alemanha, onde havia uma pracinha bacana e inovadora em cada canto, pede pelas pracinhas aqui.

 

templo do paraíso escorregador criança china pequim beijing
aproveitando o “escorregador” do Templo do Céu.

Deve haver alguma, Beijing está repleta de expatriados que mudam a cultura da região. Mas a contar pelo que vimos nos hutongs em que andamos, espaços públicos e gratuitos, para divertimento da população, não são o forte da cultura chinesa.

 

A SARA É A ATRAÇÃO NÚMERO UM

E eu só me pergunto o que vem pela frente, afinal os beijinenses estão razoavelmente acostumados ao público internacional. Enquanto estivemos aqui:

  1.  Ela ganhou presentes: moon cake para comer no Festival de Metade do Outono, pera, jujuba (que é metade pera, metade maçã). As pessoas oferecem o que tiverem a ela, como se fosse uma deusa a ser cultuada.
  2. Milhares de pessoas pediram para tirar fotos, ou então tiraram fotos sem pedir. Uma pessoa fez um vídeo da Sara com o seu filho no Palácio de Verão e um monge (esse aí da foto) tentou em vão tirar uma foto com ela.

3. Uma pessoa sentou ao nosso lado no metro e começou a conversar com ela, mexendo no seu cabelo. Para quem conhece a Sara, pode imaginar como ela ficou constrangida com isso.

4. No hostel, ela fez amizade com o pessoal que dorme aqui e trabalha durante o dia – ficam horas jogando pimbolim. É bem engraçado: ela não fala nada, só faz “hum hum”, manda no pessoal e faz as próprias regras – como, por exemplo, ela pode mexer com todas as manoplas do lado em que está, mesmo que sejam do time oposto. E aparentemente o “seu” time faz gol mesmo quando o “seu” goleiro faz gol contra.

chineses criana jogando pimbolim china beijing pequim
a turma do pimbolim

ELA TEM MUITO MAIS FÔLEGO DO QUE IMAGINAMOS

E isso a gente comprovou escolhendo a parte mais difícil de Muntinyau para começar a nossa exploração da Grande Muralha – ela foi até a última torre de observação, onde um monte de marmanjões não tiveram forças para ir.

É claro que no meio do caminho sentamos bastante nas escadas. E que ela lá pelas tantas não queria ir mais. Mas acabou indo, e o visual que encontramos na Muralha “não restaurada” ou “não refeita”, que seria o termo mais adequado, compensou o esforço.

 

vista muralha da china mãe filha criança pequim beijing
olhando o mundo de cima!

O Palácio de Verão, em que entramos pelo Portão Norte, o mais próximo do metrô, também teve seus desafios. Enorme, magnífico, cheio de recantos escondidos, chegamos um pouco tarde para explorar a área com calma. Quando finalmente pegamos o barco para cruzar o lago – por insistência da Sara – começamos a perceber que simplesmente não tínhamos visto uma das partes mais legais: a Torre do Incenso Budista. Já eram 15h30, e o parque fecha às 17h30 –então começamos a correr.

No caminho, ainda encontramos o Salão da Benevolência e Longevidade, cuja acesso tínhamos pago e não usado. Entramos, vimos o que deu, e seguimos. Não subestime: o Palácio de Verão é imenso!

Às 16h45 conseguimos achar a entrada da Torre do Incenso Budista e começamos a fazer a caminhada (=subidas, subidas, subidas). Claro que, chegando ao topo, nos demos conta que estivemos antes a apenas uns 20m do local, mas não o vimos (porque ficava atrás de uma pequena elevação do terreno).

Toda essa correria, e a nossa pequena exploradora andando, sem carrinho, e olhando as exposições, os termômetros em forma de navio, e os budas de milhares de mãos e rostos.

criança óculo palácio de verão china pequim beijing
Tirando fotos malucas com os seus novos óculos comprados na entrada do Palácio.

 

UMA ATRAÇÃO POR DIA – E DUAS JÁ É DEMAIS

As recomendações do Lonely Planet a respeito de Beijing não servem para nós. Passar voando pelos lugares nunca foi muito a nossa cara e, com criança, ficou impossível. Eu vejo itinerários do tipo:

dia 5 – Cidade Proibida e Praça da Paz Celestial

e dou risada.

Claro, faz todo o sentido. É só atravessar uma rua, não?

  1. Você terá que sair do hotel (o que já é uma missão) e pegar o metrô. Digamos que você saia às 9h, estará chegando próximo à da Cidade Proibida às 10h.
  2. Eu disse próximo: porque você terá que caminhar muito até efetivamente entrar na Cidade Proibida. Tem que passar pela segurança (no nosso caso, não tinha fila, mas dizem que no verão é terrível), e caminhar pelo menos uns 300m para chegar na bilheteria.
  3. Depois de comprar o bilhete (tivemos sorte, não tinha muita fila também, isso já era umas 11h30), você entra na cidade. Daí, a viagem se divide, porque você pode ser um visitante do tipo:
    1. que sai correndo e apenas passando pelo lugar, então em 1h você sai do outro lado e pode dizer aos amigos e a si mesmo que esteve na Cidade Proibida.
    2. que gosta de olhar o seu redor, entender onde está e aprender um pouco sobre a cultura do país onde se meteu – que é o nosso caso. Aí, em umas 2h, 3h, 4h estará na saída. Nós saímos por volta das 3h30. 
      cadeiras cidade proibida gente sentada chineses china beijing pequim
      Para informação: apenas UM dos muitos complexos de bancos para a galera sentar na Cidade Proibida. É, querido leitor, cansa muito andar por lá!

       

  4. Você sai e o roteiro lhe manda ir para a Praça, certo? Único senão: ela é lá na entrada da Cidade Proibida – isso quer dizer que tem que caminhar tuuuuuudo de volta. Você, seu corpo cansado, empurrando um carrinho de criança, uma mochila, uma máquina pesada. Levamos quase 1h neste trajeto – na esperança de que, quando chegássemos na entrada, fôssemos ver o museu do portão, cujo bilhete compramos erroneamente.
    Desistimos e fomos almoçar/jantar, lás pelas 17h, num shopping na Wangfujing.

corredor cifdade proibida pequim beijing china
agora volta tudo isso amigo! E ainda dá conta de passear na Praça 😛

O dia em que conseguimos empacotar mais atrações foi apenas porque elas são uma ao lado da outra e próximas ao hostel: visitamos a Escola Imperial, o Templo Yonghe e os lagos Houhai. A caminhada até os lagos, contudo, foi meio puxada, chegamos à noite no hostel.

Cada família é uma. Na nossa, fazer as coisas com calma e conseguir chegar no hotel cedo são coisas importantes. Por isso, alocamos MAIS dias do que o recomendado para uma cidade/região, sempre.

 

HISTÓRIAS DE PRINCESAS, CONCUMBINAS E NOIVAS CHINESAS SERÃO O CHARME DA VIAGEM

Até porque as noivas teimam em aparecer nas nossas viagens. E a Sara ficou encantada com essas princesas que não são Disney.

A história das concubinas e onde eram escolhidas pelo Imperador, onde eram encenadas as óperas para a Corte dentro da Cidade Proibida, foram suficientes para entreter a Sara nas nossas caminhadas pelas imensas atrações beijinenses.

Exige um pouco de imaginação e esforço por parte dos pais, mas é uma forma de estimular sua curiosidade e imaginação. As atrações chinesas não têm aquela parte “child-friendly” para ocupar os pequenos – o Museu Nacional tem, mas estava fechada quando estivemos por lá.

criança templo do paraísdo templo do céu china pequim beijing
O que a Sara achou de Beijing?

Beijing é uma cidade grande, importante na cultura chinesa E mundial, e cheia de atrações fantásticas, que levam tempo para serem visitadas. Quando você ler “fique 5 dias”, acrescente mais 2 ao menos ao seu itinerário. Você não irá se arrepender – e será BEM mais factível com uma criança.

 

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7 comentários sobre “VIAJANDO PARA BEIJING COM CRIANÇA

  1. Muito legal. Adoramos esta visita de vocês a Cidade Proibida. Solange lembrou, com saudades, de nossas viagens às fazendas em Cachoeira do Sul quando vocês eram pequenas. Um grande beijo na Sarinha. Boa Viagem.

  2. Cristina, mto legal seu blog e em especial este post! Estou começando a planejar as minhas primeiras ferias com a minha filha, que terá 6 meses quando viajarmos.
    Eu e meu marido adoramos a ásia e temos passado a maior parte das férias dos últimos anos por lá, em especial no sudeste asiático e eu estava pensando em ir para a China e Japão com ela. Como será a primeira viagem que faremos com um bebe queria a sua opinião sobre estes países com um bebe… obrigada! bjs

    1. Oi, Ludmila, obrigada por ler e comentar!
      Eu não conheço o Japão, mas na China você não deve ter grandes problemas, principalmente se ela ainda estiver amamentando (leite existe, mas é mais caro por lá). Crianças brasileiras são muito chamativas para eles, então talvez canse um pouco o assédio – e sempre vale lembrar que bem pouca gente fala inglês (é o oposto dos países do sudoeste).
      Mas vai fundo! A China é demais! Em que lugares estão pensando em ir?

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