UMA SEMANA NUM HUTONG BEIJINENSE

Nosso hostel é num hutong, o hostel onde fomos alocados no primeiro dia também era. Caminhamos basicamente por hutongs quando fomos à região dos lagos Houhai após o Templo Yonghe.

Não somos os especialistas em hutongs, mas pode-se dizer que nos últimos dias vimos bastante coisa por aqui. Com certeza, uma experiência radicalmente diferente daquela que vivi em hotel 5 estrelas, da outra vez em que estive em Beijing.

Daquela vez, lembro nitidamente da minha acompanhante – chinesa – apontando para esses becos acinzentados e me dizendo: eu cresci num lugar assim. Tenho muitas saudades. Lembro também de pensar: cruz-credo! Que lugar é esse?

entrada porta vermelha hutong china beijing pequim

Pois cá estamos: uma semana de hutong sendo completada hoje. Sabe o que mais? É a vida como ela é.

Sim, uma opção bem mais segura teria sido escolher uma cadeia pasteurizada de hotéis, e ficar no mesmo quarto em qualquer lugar que estivermos aqui na China. Poderia ser qualquer um, afinal são todos iguais. Não haveria surpresas, como no nosso primeiro dia. Os lençóis são sempre brancos. O banheiro sempre com chuveiro isolado e privada de se sentar. A recepção fala inglês.

hotel china rede 8
Hotéis pasteurizados versão China

(Extra: tive uma surpresa no Ibis de Dubai. Um cheiro nauseante de comida no quarto, quase não me deixa dormir – e vinha da tubulação de ar central. Tão ruim que na volta escolhi um hotel local)

Hotéis pasteurizados são bons, reconfortantes, conhecidos e seguros. São ótimos. Porém também são frios, sem sabor, e geralmente caros, quando comparados com o que a cidade tem de hotéis locais. Além disso, pertencem a grandes corporações – é, essas mesmas que há tempo tenho olhado com olhos mais cuidadosos. São péssimos.

Estamos, então, há uma semana justamente no lugar em que, um ano atrás, me causava espanto. Quando chegamos, e tivemos que ir carregando nossas malas para sair do hutong de madrugada, e sacos plásticos, restos de comidas, caixas, pequenas motocicletas e demais bugigangas entulhavam o caminho, confesso que não foi fácil.

hutong beijing pequim china
cena típica do nosso hutong

Porém, a cada dia, descobrimos uma coisa a mais aqui na região. Claro, não falamos chinês – e os cardápios não são traduzidos. Então, até que encontramos um lugar bacana, demora um pouco mais, se não pedirmos ajuda.

A questão está, há que se pedir ajuda aqui. Eles adoram ajudar. Hoje, simplesmente paramos na frente de uma escada em que descia um bilhão de chineses de uma linha de metrô, esperando passar a muvuca. Neste mesmo momento, uma pequena crise no casal e um homem se vira, solícito, “may i help you?”. Eles sempre querem ajudar, do jeito que conseguirem.

Hoje, antes de sair para o Museu Nacional da China, paramos pela primeira vez num buraco que é uma das padarias da saída do hutong. Eles têm mesinhas lá dentro, mas também atendem quem passa por uma janela que dá para a rua. 7 dias, e é a primeira vez que compramos algo ali. Nossa surpresa: um bolo fofinho, delicioso. Um chá vermelho no ponto. Um café da manhã por 24 yuan para três.

Aqui no hutong aprendemos a conviver com o high-low, o tempo todo. Gente cruzando de carro imenso no meio de motos carregadas de todos os pertences do mundo. Meninos de bunda e pingulim de fora, do jeito tradicional chinês – sem fraldas (e no Brasil, uma blogueira causa grande controvérsia porque ensinou seu filho de 5 meses a não usar fraldas. Eeee brasileiros, precisamos muito de perspectiva). Restaurantes bacanas, frequentados por gente de todo o mundo, ao lado de outros com segurança questionável.

Só na nossa quadra, tem duas lojas de conveniência, apenas bebidas e cigarros, quase uma ao lado da outra. Deve ter uns 4 ou 5 pequenos restaurantes – mais como roticerias – preparando carnes. Restaurantes, mais uns 5 no mínimo. Uns 2 mercadinhos que vendem de tudo.

Tudo isso, em uma só quadra. É um microcosmo da civilização.

Não é a localização mais bela de Beijing. Porém estamos perto de tudo, pois tem um metrô aqui do lado. E estamos tendo, mesmo que não tivesse sido plenamente planejado, uma experiência de vida.

Quando passamos, pela manhã e à tarde, temos nossa turminha para o nihao: a moça da padaria onde comemos hoje, a dona e a garçonete do restaurante em que comemos dumplings 3 vezes (delicioso!), o pessoal do mercadinho onde compramos água, o cara da conveniência que sempre vende a última cerveja do dia – e que sempre abre a garrafa de 500 ml para virmos caminhando até o hostel e bebendo.

Apesar de não ser couchsurfing, ainda assim um pequeno olhar para a vida do beijinense normal. Aquele que não faz parte do um milhão de milionários que habitam este país.

tuc tuc táxi china
E não usam Mercedez Bens na locomoção

Nos hutongs onde andamos vimos crianças brincando até a noite, velhos jogando Majong, ingredientes sendo entregues pela manhã na porta fechada de restaurantes, pessoas comendo espetos de carne e sugando seus noodles. Depois de uma enxurrada, vimos água empoçada e no dia seguinte o céu mais lindo e a rua mais limpa.

Vimos uma briga de rua entre dois ciclistas que se pecharam. Vimos mães e pais buscando seus filhos na escola, gente vendendo todo tipo de comida de rua, gente vendendo frutas, legumes, coisas indecifráveis, sobre uma toalha estendida no chão.

briga trânsito China beijing
Uma (outra) briga de rua. Não me admira que não se matem todos em uns 10 dias, tal é o caos do trânsito.

Nenhuma vez, contudo, andando durante o dia, à noite, de madrugada, tivemos qualquer sensação de medo. A briga dos ciclistas foi tão chocante que nós e os nossos colegas de hutong paramos para assistir – até que duas senhorinhas foram lá apartar 😉

No primeiro dia no hostel definitivo, após umas horas de sono à tarde para compensar a noite mal dormida, queríamos ir passear em algum lugar, apenas para não continuar dormindo. Fomos à recepção e perguntamos: você acha que é seguro irmos à noite até Wangfujing (a rua comercial badalada dos ricos, famosos e turistas de Beijing)?

A moça iria responder, mas parou por um segundo, espantada com a pergunta. Gentilmente, com um sorriso no rosto, ela apenas nos informou.

É sempre seguro andar em Beijing.

Infelizmente, não podemos dizer o mesmo das grandes cidades brasileiras. Estamos tão acostumados com a violência que nem a notamos como algo extraordinário mais. Ela faz parte da nossa paisagem comum.

O mais engraçado é que muita gente, muita gente mesmo, nos perguntou se não tínhamos medo de vir para a China. De vir para a China com uma criança.

Sinceramente?

Tenho bem mais medo de morar no Brasil.

 

E você, caro leitor? Já teve uma experiência “a vida como ela é” em viagens? Conta para a gente aí nos comentários!

Quer ganhar um ebook incrível com as ferramentas de desenvolvimento pessoal que usamos nas viagens?

Assine a nossa newsletter e receba por e-mail: o ebook é gratuito e está cheio de fotos inéditas!

Sem spam. Só coisa boa.

3 comentários sobre “UMA SEMANA NUM HUTONG BEIJINENSE

  1. Esta visão da China como-ela-é surpreende e elucida. Um país que veio de guerras e revoltas populares, demonstra uma capacidade de se reinventar e crescer mantendo antigas tradições. Um cotidiano nos bairros populares com mercadinhos, restaurantes e padarias minúsculas, somados a um mercado de-tudo-um-pouco sobre toalhas nas ruas dão a estes locais uma idéia sobrevivência típico de um povo guerreiro. Além disto, uma boa briga por colisão de bicicletas.
    Adorei este panorama de vida do cidadão chinês.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *