CHEGANDO NA CHINA – LIDANDO COM O (IN)ESPERADO

Nosso vôo era Qatar Airways desde o Brasil. Decidimos por ele para poder ficar uns dias na Alemanha, fazer um pit-stop no meio do caminho com os primos e amigos, e começar a aclimatação. A Qatar quer ser a companhia de escolha de todo mundo que vai para a Ásia, e tem que fazer conexão em algum lugar de qualquer jeito, então o vôo São Paulo – Frankfurt – Beijing era uns 400 dólares mais barato com eles. Por pessoa.

Só a coisinha de fazer um pit-stop em Doha. Com isso, saímos de Frankfurt pela manhã e um vôo de 6h nos levou a Doha. 12h depois, pegávamos nosso esperado vôo à China. Uma fila imensa na imigração e um carrinho de bebê que foi a última mala a chegar nos fizeram sair do aeroporto mais de meia-noite.

Já no táxi, pergunto ao Fernando: ele ligou o taxímetro? Não, e queria 150 yuans pela viagem. Deixamos assim, pelo cansaço, e achamos justo pela corrida – apesar de que o Lonely Planet fala de 80 a 100 apenas.

Eu já sabia que nosso hotel ficava num hutong, um dos tradicionais bairros chineses, casas baixas, lojinhas por todo o lado, muvuca, motos, scooters, bicicletas elétricas por todo o lado. O Fernando nem sabia o que era um hutong – achei melhor nem avisar, quem sabe tínhamos uma experiência como em Huaraz, onde ele chegou querendo ir embora, e foi embora querendo ficar?

O táxi foi desbravando o trânsito de Beijing, que àquela hora – ainda bem – já tinha ido dormir em maior parte. Quando ele começou a entrar em uma rua escura à esquerda, precisando desviar de carros e motos estacionados meio na calçada, meio na rua, eu me arrepiei. Vi a marca do hotel e dei uma respirada, ao menos tínhamos chegado ao lugar.

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Um lanchinho no nosso hutong

O táxi para, deixa as malas, pagamos. Já são quase 2 da manhã, o aeroporto é longe. Nenhuma recepção por perto. Um grupo bebe e joga cartas sobre uma mesa logo depois de um portão de estilo chinês. Pergunto: sabem onde é a recepção?

Alguém responde que devemos procurar uma portinha escondida à direita, e virar à esquerda. Saio, e no caminho lembro de agradecer.

Chegamos, duas malas, carrinho de bebê, mochila, bolsa da câmera, dois adultos, uma criança de quatro anos e um urso, numa recepção onde há luz, pessoas usando a internet, e um rapaz vestindo o que parece um pijama branco de algodão fino atrás do balcão.

Ufa! Isso é um hostel. Meio caindo aos pedaços, sim. Nem um pouco parecido com o luxo que tivemos em Doha, ou com o carinho da casa dos amigos na Alemanha. Mesmo assim, um hostel – com quarto com banheiro privativo e página no Booking para chamar de sua.

Começamos a falar com o rapaz, que tinha um inglês razoável. Ele vê o número da nossa reserva e começa a suar frio. Faz caretas. Começa a soprar pela boca.

Eu penso: isso não são bons sinais vindo de um chinês.

Ele continua teclando no computador e soprando. As pessoas ao nosso redor, algumas na internet, outras comendo, acompanham a nossa jornada com certa indiferença. Parecem nem perceber a hora, tão tarde, ou a criança que começa a dar sinais de prazo de validade expirado.

Por fim, venço o seu silêncio e pergunto: aconteceu algo?

Ele diz: estamos lotados.

Como assim, lotados? Olha aqui a minha reserva!

Sim, alguém deu o seu quarto para outra pessoa.

Mas veja, eu tenho uma reserva válida, vocês confirmaram. Eu tenho uma criança. Nós precisamos dormir.

O rapaz, de seus 20 e poucos anos, está transtornado. Alguém não respeitou a reserva do Booking, e agora ele tem que lidar com um casal e sua filha. Ele terá que resolver o problema.

A primeira oferta foi ficarmos num dormitório. Fernando num quarto, nós no outro.  No dia seguinte, nosso quarto estará disponível. Vou ver o dormitório – é aceitável, 6 camas. Um pouco assustador o fato de que ele entrou em um dormitório feminino cheio de pessoas dormindo, lá pelas 2 da manhã, com outra pessoa.

Volto à recepção e o Fernando tem a cara mais fechada conhecida pelo homem. Ele não quer dormir com outras pessoas, ele não quer dormir longe de nós. Pede para nos arrumarem outro hotel.

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Restaurante no nosso hutong

O rapaz, que não sabe mais o que fazer conosco, começa a ligar para outros hostels, procurando por um quarto remotamente parecido ao que havíamos reservado. Nesse meio tempo, chega uma moça e lhe pede algo em chinês.

Ela não é chinesa, mas fala em um chinês que ele entende. Lá pelas tantas, com cara de cansada, nos ajuda a encontrar uma solução para os nossos problemas de comunicação. Pergunto-lhe, “where are you from?” e ela responde “Syria”. Ao que eu respondo “sorry”, pensando que mania intrometida essa que tenho de ficar sempre perguntando de onde as pessoas são.

“Of course” que ela não entende o que eu digo e me fala “what would you be sorry for? I’m very proud of it” e eu digo – é claro que é, pedi desculpas por ser tão intrometida.

Nesse meio tempo, o rapaz de cabelo tijelinha preto lambido resolveu: temos um quarto de 6 camas, mas apenas nós dormiremos nele. Ele pagará nosso táxi até lá, e também a diferença de preço entre o nosso quarto e a diária das 6 camas no outro hotel.

São mais de 3 horas da manhã quando finalmente chegamos ao hotel em que iríamos dormir. O taxista é Uber – ou o equivalente chinês, não sabemos a esta altura ainda – e veio num Mitsubishi novinho, banco de couro, sorriso no rosto. O novo hostel, também num hutong, não é acessível para carros grandes, então ele nos aponta para a viela escura.

Não vou descer aí, nem morta, falo pro Fernando. Mostro para o motorista o papel todo em chinês que o rapaz de cabelo tijelinha nos deu, onde tinha um telefone. Sem pestanejar, ele liga para o hotel e confirma que é ali, sim. Com gestos – porque não fala inglês, e nós não falamos chinês – nos pede para ficar, alguém virá.

Uns 2 minutos no carro, e começa a sair do escuro um rapaz magro, estatura mediana, cabelo espetadinho, calça jeans e camisa xadrez sobre camiseta. Ele veio nos ajudar com as malas.

Quando nos despedimos do taxista, ele tem um sorriso grande no rosto. Parece feliz em saber que estamos começando a nos arrumar, e que em breve iremos dormir.

O rapaz do novo hostel é simpático, fala um bom inglês, e é o primeiro até então que sabe o que é o Brasil. É que em chinês se pronuncia Basííí – então ninguém entende quando colocamos o r depois do B.

Ele faz o check-in, nos dá uma chave eletrônica e entramos no quarto. A Sara já está dormindo desde o táxi, apenas continua. Eu calculo meu cansaço, minha sujeira, penso que não dá para dormir sem banho.

Chinelo no pé, pijama e saquinho com xampu e condicionador na mão, desço e pergunto se eles dão toalha. Apenas vendem – 10 yuan por uma toalha pequena, menor que uma toalha de mão. Daquelas que não secam bem nem depois da milésima lavagem.

Pego a toalha, deixo para pagar no dia seguinte, e vou ao banheiro. Há chuveiros individuais e eu tomo um bom banho. Já estou mais relaxada.

Subo para o quarto, é verão, e no caminho o muito que faltava secar acaba seco pelo ar quente. No quarto, o ar condicionado ronrona. O Fernando já tirou um dos colchões sobressalentes e colocou sobre o seu, incomodado com a dureza do colchão padrão chinês.

Penso que ele terá muito ao que se acostumar. Um cheiro nauseante do que deveria ser o Cup Noodles dos viajantes anteriores impregna o quarto. Deito. Sobre a minha cabeça, uma janela que dá para a rua.

Coloco uma canga escura para tapar um pouco a luz que deverá me incomodar em poucas horas. Já não acesso mais Facebook, Instagram, Twitter. Inesperadamente, WordPress funciona bem. Penso que poderei continuar blogando, apesar das expectativas em contrário.

Sara ressona. Fernando está deitando, mexendo no celular antes de dormir.

Não consigo dormir. Jet-lag, fuso horário, excitação, tudo se mistura. Viro na cama enquanto as horas passam. Estou tão cansada, mas o sono não chega e o cheiro do cup noodles continua ali – se continuar assim, compro um Bom Ar da vida. Deve ter por aqui.

Quando o Sol já deu as caras, finalmente durmo. O dia seguinte é somente a coisa de sair de um hostel, entrar em outro. Vamos tomar café da manhã e almoçar, tudo junto, já são 2 horas da tarde e a Sara nem reclama de fome.

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O restaurante, no hutong, onde almoçamos no dia seguinte

É um exemplo. No meio de tudo isso, de um voo longo, um hostel “esquecido”, um hostel “cheiroso”, meio dia sem comida, ela reclamou apenas quando esteve cansada, um pouco antes de dormir.

É, a China nos recebeu com braços abertos. Se queríamos desafio, encontramos.

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3 comentários sobre “CHEGANDO NA CHINA – LIDANDO COM O (IN)ESPERADO

  1. Incrível! Fui procurar informações sobre a China no GOOGLE e encontrei Cuore Curioso. Que tal? Bom, né!!

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