ESTÁ NA HORA DE DEIXAR SUAS HISTÓRIAS MORREREM

Para você ler ouvindo:

“Sou uma das quatro histórias mais difíceis que a minha psicóloga já ouviu”, me fala a holandesa loura, sorrisão no rosto.

Corpo forte que no passado era sinal que tirava leite da vaca e caminhava de tamanco em terras conclamadas pelo mar. A pele já bem queimada denunciava o tempo que já havia passado na Tailândia. Uma filha de 4 anos, também chamada Sarah, pulava na mini-piscina que as rochas da praia formavam.

Duas Saras e uma poça d'água. Praia de Ao Nuy, Koh Lanta, Tailândia
Duas Saras e uma poça d’água. Praia de Ao Nuy, Koh Lanta, Tailândia

Estávamos na Praia Ao Nuy, bem ao sul de Koh Lanta, a ilha das famílias. Por acaso, ou não, no dia anterior havíamos nos encontrado no barco rumo a Koh Rok e – filhas da mesma idade e mesmo nome – uma amizade nascera instantaneamente.

Adoro gente sem firulas, gente que fala o que pensa, gente que se abre em sorriso e em fala assim que conhece os outros. Na hora que ela, quase sem ter conversado até então, pediu para colocar a sua mochila sobre a nossa esteira, eu soube que era das minhas.

Quem abre uma conversa dizendo que sua história é tão difícil, espera contar a história. Eu, contudo, sei que essas histórias de vida, maravilhosas, assustadoras, reveladoras, são melhores quando espontâneas. Não fico cutucando. Espero, pacientemente, desviando do assunto, sem perguntar “o que aconteceu”, até que ela veja em mim alguém merecedor de receber o que lhe acontecera.

Então, após dois dias andando de moto para cima e para baixo em 5, jantar com vista para o mar, massagem na beira da praia, lavagem frequente de alma com água de mar, a história foi aparecendo aos poucos.

Pais separados quando criança. Mãe, internada, doença mental não identificada até sua morte. Pai assassinado pelo meio-irmão mais velho. Adotada aos 10 anos. Pai adotivo amoroso que sofre um infarto e morre aos 12. Saiu de casa ao 17. Nenhum namorado, marido, amigo próximo para chamar de seu – a espoletinha veio com uma inseminação, no afã de ser novamente uma família. Ainda uma cirurgia que apenas deixou traumas, tantos que é a única coisa sobre a qual não fala.

Incrivelmente, ela me conta isso e sorri. “Até ela nascer”, me diz, “eu nem pensava no assunto. Dizia para mim mesma que tudo isso tinha ficado para trás e que a minha vida era dali para a frente. Só que ela nasceu. Eu não era mais sozinha. E, como apenas crianças conseguem fazer com adultos, ao olhar para a minha filha, fui obrigada a olhar para dentro de mim também. Tive que buscar ajuda”.

Nada, nos últimos dias, poderia denunciar a história. É dessas pessoas que passam a vida com cargas pesadíssimas, mas que parecem flutuar sobre elas. Tem rugas de quem sorri demais, e aquela atitude aberta, vamos nadar no mar e catar conchas e lagartear na areia e conversar até não ter mais o que dizer, e então vamos inventar o que dizer.

Ela buscou ajuda. Foi atrás do passado, do pai que tina uma história nebulosa com os nazistas. Encarou a própria nuvem negra que sempre havia pairado sobre sua cabeça. E decidiu seguir em frente.

Enquanto isso, eu mesmo carrego minhas cargas. Imensamente mais leves. Pesadamente mais mundanas. Elefanticamente mais ingênuas. Vagarosamente se prendendo nas minhas memórias, inundando todos os meus pensamentos, se mostrando aqui e ali em atitudes e escolhas.

Olhava aquela holandesa com vontade de mundo, que dava risada alta, cuja filha era espontânea e aprendera a nadar aos 3 anos, e via a mim mesma. Como se estivesse sentada na minha frente, contando aquela história de abandono e dor, eu me via. Como eu contaria aquela história?

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Neste caminho de desapego, talvez nossas histórias sejam ao que mais nos apegamos. Parecemos tão arraigados no que passamos – eu vendo meu carro, minha cama, meu fogão novinho em folha, mas me impeço de esquecer que um dia Fulana furou uma saída comigo. Quando fui fazer as contas, quanto tempo havia se passado? 5 anos. 5 anos que eu não falava com uma das minhas melhores amigas, porque um dia ela me deu um furo.

Damos atenção demais às nossas histórias. Carregamo-las, alimentamo-las, resgatamo-las quantas vezes forem necessárias para que fiquem para sempre vivas – tal fígado de Prometeu, abocanhado de dia para crescer novamente à noite.

Nossas histórias não se submetem à ordem natural das coisas: nascer, crescer e morrer. Não são enterradas a sete palmos para serem pisoteadas no dia seguinte por novas histórias, mais frescas, de um novo eu.

Não, queremos ser para sempre o eu que passou por AQUELAS histórias. Será que deixaremos de sermos nós mesmos esquecendo delas? Nem deixamos outras histórias acontecerem, sob pena de perdermos as primeiras, e a nós mesmos na sequência.

Vemos sempre os mesmos amigos. Viajamos para a mesma praia, todo janeiro. Vestimos as mesmas roupas, das mesmas cores. Tratamos as mesmas pessoas sempre do mesmo jeito – como se elas, e nós mesmos, fôssemos imunes a mudança. E contamos, continuamente, as mesmas histórias.

Sim, é preciso saber perdoar. Sim, não se deve guardar rancor. Mais fácil falar do que fazer, não? A questão é CONSEGUIR perdoar. CONSEGUIR não guardar rancor.

Perdoar é deixar aquela história morrer, e dar ao outro a oportunidade de não ser uma estátua, imutável no tempo. Perdoar, também, é olhar para si mesmo com uma certa desconfiança saudável, ter um grilo falante dizendo continuamente: será que você está tão certo assim?

Esses dias uma pessoa me disse: você está sempre certa, até que canse de estar certa. Ela tem razão. Essa certeza também tem data e hora e local de enterro. Outra certeza tem que nascer.

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Árvore no templo de Ta Prohm, Parque Arqueológico de Angkor, Siem Reap, Camboja

Já está na hora de enterrar as minhas histórias. Deixa-las apodrecer no fundo escuro de um buraco no chão, para dar espaço a uma nova árvore que se estabeleça esplendorosa sobre elas.

Um dia desses, visito minha amiga holandesa apenas para dizer o quanto ela me ensinou. Engraçado, em certo ponto ela me disse que eu entendia de gente – quando na verdade, era ela quem entendia de SER gente.

 

Há quem diga que viajar é transformador porque vemos o mundo. Tem muita beleza escondida no fim da estrada de quem se arrisca a sair de casa. Mas não é só isso. Viajar é transformador porque vemos a humanidade.

Tem ainda mais beleza escondida nas pessoas e nas coisas que nos ensinam.

 

 

Quero saber de você: que histórias que já tem data e hora de enterro?

 

máscara de Buda

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10 comentários sobre “ESTÁ NA HORA DE DEIXAR SUAS HISTÓRIAS MORREREM

  1. Como nos deixamos dominar por melindres! E assim deixamos que se vão lindas amizades, por preferir o silêncio que não é esclarecedor. Outro dia encontrei uma amiga de quem um desses melindres me fez desviar a rota. Mas há sempre um novo dia, um novo encontro, e consegui reatar a amizade. A vida é repleta de oportunidades para recuperarmos o que julgávamos perdido. E quando se trata de pessoas, as surpresas são incríveis.

  2. Um post sobre perdão… o grande libertador! E mais ainda quando nos permitimos que seja aplicado a nós mesmos!
    Só ficou a pergunta que não quer calar: você procurou a sua amiga furona?

    1. Oi, Ana,
      você não sabe como me deixa feliz sabendo que te emocionei, da mesma forma como a história da minha amiga holandesa também me emocionou.
      Agora, seque as lágrimas, deixe essas histórias para lá, e siga a vida 😉
      Beijos!

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