ESCREVENDO NA AREIA, ESCREVENDO COM ÁGUA

Eu passei a infância, adolescência e a transição para a vida adulta curtindo o verão numa casa de praia que a família tinha em Tramandaí, no Rio Grande do Sul. Quem vai à praia aos finais de semana, ou passa uma temporada por lá, tem uma experiência muito diferente de quem passa um mês inteiro e volta todo ano para a mesma casa. Pensando hoje, é uma experiência existencial, como se todos os anos pudéssemos testar um novo eu, fresquinho, durante os 30 dias que duravam o veraneio.

Na praia, podíamos ser quem quiséssemos. Eu podia ser a menina mandona e emburrada, ou podia ser descolada e maneira e gostar de reggae. Dava para fingir ser popular, ou trocar de religião e contemplar a umbanda. Dava para esquecer a vergonha e dar feliz ano novo para todos os carros que passavam na avenida, ou fazer amizade com os surfistas locais que encontrávamos na beira da praia. Dava para pensar ser uma razoável jogadora de vôlei, e treinar com as minhas amigas para valer. Dava para ser o que eu sempre era, ou simplesmente criar um novo ser que era mais uma possibilidade de mim.

 

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Tramandaí, areia sem fim, vento sem fim, possibilidades sem fim

 

Não apenas eu sentia essa mudança. Fora do apartamento, tinha churrasco todo final de semana, até minha mãe fazia. Minha vó, que passava sempre uns dias conosco, bebia uma caipirinha doce nunca antes provada em casa (e dizia, para deleite das filhas e netas, deitada bêbada no sofá da sala: “O que vocês fizeram comigo?”). Em casa, meus namorados não podiam dormir o meu quarto, mas na praia minha mãe experimentava um novo eu e permitia.

Como esses veraneios eram importantes! Era como escrever na areia: a mensagem estava lá enquanto a onda não vinha. Estava firmemente escrita no chão, até que a próxima movimentação do oceano a apagasse e deixasse uma areia limpa, livre, preparada para a próxima escrita. Cada veraneio era uma nova tentativa, um novo eu.

Escrever o meu eu na areia da praia era o máximo que eu precisava de certeza naqueles tempos. Eu sabia que, não estando bom aquele eu, havia pela frente muitas possibilidades a serem testadas, muitos eus que haviam ainda de serem escritos. Não havia pressa para ser um, ou outro, havia sim a urgência do teste, da possibilidade. Algumas coisas haviam começado a se sedimentar, mas eram poucas: eu gostava de ler, de escrever, de falar com as pessoas. Eu gostava de gente ao meu redor e de ter amigos. Eu gostava do mar. O resto todo ainda estava em teste.

Depois, a vida foi me dizendo que precisava ter mais certeza, saber quem era, colocar um contorno fixo ao meu redor, me encaixar em alguma caixinha. Por que vamos deixando isso acontecer? Talvez seja mais fácil cumprir um papel apenas do que ser polivalente. Então deixei acontecer. Quando vi, aquelas complexidades, delicadezas, possibilidades, haviam todas ido embora de mim. Elas lutavam para sair, mas estavam sempre sendo engolidas pela enxurrada de trabalho que eu tinha, pelo cansaço em manter uma família, pelo desânimo em não fazer algo que realmente me instigasse.

Então, no ano passado, passeando pelo Palácio de Verão em Pequim, eu vi este homem, um senhor já, com uma vareta com uma esponja amarrada na ponta, uma garrafa com água, escrevendo no piso de pedra. Enquanto milhares de pessoas transitavam por ali, e o calor de 40°C secava tudo o que estava disponível, este homem escrevia com água no chão.

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Fiquei parada, tirando algumas fotos, do que parecia uma obra perdida, pois existia para logo em seguida desaparecer para sempre. Enquanto eu fotografava, possivelmente quatro ou cinco obras simplesmente desapareceram na minha frente, até que ele me perguntou de onde eu era. Eu disse, Brasil, e ele me escreveu a mensagem abaixo.

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Tenha uma boa viagem

Daí me ocorreu: a obra não era a mensagem. A obra era o ato de escrever. Aquele senhor não estava ali para deixar uma mensagem iluminada à posteridade, mas para deixar uma marca em mim, e em quem pudesse assisti-lo, de persistência e movimentação constantes. A obra deste senhor era ele e a sua vara e todos os seus movimentos, era uma dança, não uma pintura ou uma escultura.

Assim como todas aquelas experiências nos verões tórridos gaúchos, aquele senhor estava ali para me lembrar de continuar mudando. Continuar tentando, continuar experimentando. Olhar para ele, e fotografá-lo, era mais uma parte da obra. Eram algumas das minhas possibilidades, a viajante, a fotógrafa, aflorando e rompendo a caixinha.

Faz-se esculturas em pedra que se perpetuam pelos séculos. Mas a dança, essa dança que somente existe enquanto acontece e você a contempla, é a vida. E a vida não é feita de certezas e contorno fixos e caixinhas. Ela é feita de movimentos, e ondas, e água e fluidez.

Você pode martelar numa pedra, e transformá-la em algo lindo, mas às custas de muito suor, esforço, dor.

Mas você também pode pintar com água sobre esta pedra, e criar com seus movimentos uma dança, e transformar-se em algo lindo enquanto dança.

 

Uns escrevem na areia e a água leva, outros escrevem na pedra e a água seca. Todos dançam.

 

Ps.: quando escutaram que eu era do Brasil, dois homens que estava li perto sentados falar: “ah, Michel, Teló! Lepo Lepo!”. Pobres Tom e Vinícius, era uma vez a fama do Brasil pela Garota de Ipanema.

 

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