COISAS QUE APRENDEMOS COM AS NOSSAS 11 MUDANÇAS

Eu devo ter um pé muito inquieto mesmo. Já tinha perdido as contas de quantas vezes havia me mudado, até ter que escrever sobre a montanha de coisas que eu carrego. Foram 11. Conheço milhares de pessoas que moram nas mesmas casas desde sempre, e seus pais moram nas mesmíssimas casas, e seus avós moravam nestas casas também. Há uma beleza nesta estabilidade.

Pois eu me mudei 11 vezes. Desde que nasci, algumas vezes não fui a protagonista da mudança, outras me mudei sozinha, foram 11 novas casas cujas portas abri para me instalar. É um dos números mestres, não? Deve ser por isso que esta última mudança é tão revolucionária na nossa vida. A partir desta mudança, tudo o que considerávamos certo, seguro e posto, cai por terra.

Um dia eu contei a minha vida a partir das viagens que havia feito. Hoje eu posso contar pelas mudanças, e pelo que elas me ensinaram.

É MUITO MAIS DIVERTIDO JUNTO

Quando me mudei para São Bento do Sul, não tive nenhuma ajuda no desempacotar. Deveria ter tido, mas o executivo-wanna-be do meu ex-namorado era muito especial para dar uma mão. Foi a pior mudança, a mais pesada, a mais longa, a que levou mais tempo para ser resolvida.

Para compensar, quando nos mudamos para o apartamento de Jundiaí, eu estava grávida de 5 meses. Nossos amigos queridos fizeram um mutirão e vieram nos ajudar a trazer as bugigangas, roupas, móveis e tudo o mais para cima, no 4º andar de um prédio sem elevador. Foi um dia de novembro muito especial, teve amiga minha dizendo que as minhas calças de trabalho eu iria usar numa festa à fantasia, teve meu cunhado pagando xis e coca-cola para os caras da transportadora, teve uma mão de cada um que foi.

Mudança é difícil, envolve esforço físico, envolve desapego. Mas feita junto, é muito mais fácil.

COMPRAMOS MAIS COISAS DO QUE PRECISAMOS

Sim, na última mudança eu tive a certeza de que vivemos num mundo consumista e sem sentido. Para que eu precisava de 11 almofadas? Porque tínhamos 7 travesseiros? Qual o motivo de termos 3 sofás e 2 camas de solteiro, sendo uma delas uma bicama? Havia necessidade de tantos quadros, e enfeites, e barcos e utensílios de cozinha? Eu mesma respondo, não havia.

A amiga que me apresentou ao minimalismo me disse: você deve ser dessas pessoas que vai numa loja, acha algo bonito e compra. Sim, eu sou assim. Ela, pelo contrário, fica se debatendo consigo mesmo, pensando se vai combinar com a sua casa – e não compra.

A cada mudança, são sacolas e sacolas de coisas doadas. Coisas que compramos e de que não precisamos. Coisas que basicamente somente servem para aumentar a conta do cartão de crédito, e para suprir um vazio inteiro deixado por uma não-coisa que não temos – felicidade.

Mil sapatos para compensar a infelicidade e mil armários para colocar os mil sapatos para compensar a infelicidade.
Mil sapatos para compensar a infelicidade e mil armários para colocar os mil sapatos para compensar a infelicidade.

Boa parte das roupas que tinha vendi, e o que não vendi, deixei numa caixa, sem abrir. Viemos para cá, Casal Cuore e filhinha, com 6 malas: duas grandes e quatro pequenas. Até então, não havia armário que coubesse as minhas roupas. Hoje, estamos usando apenas duas portas de um armário velho da minha adolescência. Não sinto falta de nada. Porque basicamente, é isso. Eu estou feliz, não preciso mais de roupas e sapatos.

TEMOS QUE APRENDER A DESAPEGAR

Pior do que o que compramos, são as coisas de que não nos desfazemos.

Pois eu tinha quadro rasgado guardado dentro do armário de produtos de limpeza. Roupas que não cabiam mais em mim por anos. Sapatos que me sempre me machucavam os pés. Lustres que não penduramos nos últimos 3 anos e rede que não havia onde pendurar.

A decisão sobre todas estas coisas já tinha sido tomada há anos: elas não eram usadas. O porém – o desapego não aconteceu. Não adiantava decidir e não agir sobre a decisão tomada. A cada mudança, todas as decisões tomadas não executadas viraram montanhas de sacos de lixo para doação ou descarte.

Na última mudança, em que fizemos o Grande Bazar pelo Facebook, a amiga minimalista falou: você deveria fazer um Bazar por ano. Ela tem razão. Apenas que agora, a mente está se encaminhando para comprar menos coisas e curtir mais a experiência.

Quer vender roupas usadas pela internet? Pergunte-me como.
Quer vender roupas usadas pela internet? Pergunte-me como.

Mas se tem algo que aprendi nessas 11 mudanças: VOCÊ pode também fazer um bazar, agora.

TODAS AS CASAS VIRARÃO A SUA CASA

Muita gente não se muda pelo apego que tem com “a casa”. Aqui que meus filhos foram criados, neste quarto eu transei pela primeira vez, esta é a nossa horta desde os nossos avós, conhecemos os vizinhos.

Eu tenho estes medos também. Quando saímos do apartamento de Jundiaí para morar em Lins, foi duro deixar o berçário que tinha feito para a Sara – todo moderno, cheio das frases das músicas que se chamam Sara. Mas quer saber? Aquele quarto também tinha muitos problemas, era pequeno e o armário foi mal projetado (por nós). Mudar nos propiciou fazer um quarto muito mais bonito do que aquele. E mudar novamente propiciou um quarto mais bonito do que os outros dois juntos!

Um quarto musical, para uma menina cujo nome é uma música
Um quarto musical, para uma menina cujo nome é uma música

Isso é batido, mas deve ser dito: uma casa é um lar pelas pessoas. Morei 4 meses num quarto de hotel em São Bento do Sul, e aquele quarto tem lembranças para mim: recebi a notícia da morte do meu avô, perdi um amor, ganhei um novo, fiz amizades, fui maquiada pela primeira vez, tive meu primeiro torcicolo que precisou de fisioterapia.

Colhendo morangos na sacada do quarto novo - sacada que só existiu no quarto novo!
Colhendo morangos na sacada do quarto novo – sacada que só existiu no quarto novo!

Qualquer casa será sua após alguns dias de vivência. O sentimento, as memórias, os olhares, os sentidos são carregados com você, onde quer que esteja.

O FORASTEIRO É SEMPRE O CULPADO

Essa é apenas para quem se mudou de cidade. Se você tiver a audácia de se mudar de estado, então, prepare-se, você será um forasteiro.

Não houve cidade em que tenha morado em que o culpado por suas mazelas eram seus próprios habitantes. Em São Bento do Sul, era o povo que vinha para trabalhar nas moveleiras. Em Jundiaí e arredores, eram os nordestinos. Em Lajeado, eram os brasileiros (mais sobre isso num post por vir). Em Lins, bem, Lins, não recebe mais tanta gente de fora.

Tudo – assaltos, sujeira na rua, falta de passarinhos, excesso de pombas, falta de emprego, salários ruins, música alta, trânsito, assassinatos, não ter lugar na missa, lojas muito cheias, lojas vazias – é culpa dos forasteiros.

O mais engraçado é que no Rio Grande do Sul os paulistas são os culpados, enquanto que em São Paulo, os gaúchos são os culpados. Logo, das duas uma:

Ou número de forasteiros é tão alto e capaz de impactar cada único aspecto da vida daquela cidade

Ou os cidadãos natos são também compostos por gente de má índole, desleixada, de péssimo gosto, fazedora de filhos, mau empregadora, excessivamente religiosas e consumistas. Eles mesmos são os culpados pelas mazelas de suas cidades, e simplesmente não querem admitir.

Xenofobia, valorizando as relações humanas desde a Grécia Antiga. Fotos de Torres, RS, mas poderia ser em qualquer cidade em que já morei.
Xenofobia, valorizando as relações humanas desde a Grécia Antiga. Fotos de Torres, RS, mas poderia ser em qualquer cidade em que já morei.

Porque falar mal de si mesmo, ninguém quer.

Ah, e  dificilmente os cidadãos natos fazem amizade com os forasteiros. O mais comum são grandes grupos de forasteiros que fazem amizade entre si. Se você mora na mesma cidade desde sempre, pergunte-se: quem são seus amigos próximos? Algum deles não nasceu aí?

É PRECISO PLANEJAR AS MUDANÇAS

Esta é da parte masculina do Casal Cuore, atual responsável pelo encaixotamento nas mudanças: planejar é preciso.

Nesta última mudança/bazar/alocação de coisas, tínhamos que decidir onde colocar as coisas que queríamos manter. Tínhamos que levar para a casa de um dos pais: como decidir? Aos poucos, fomos marcando cada caixa, colocando no carro as caixas que queríamos trazer para o Sul, deixando na casa aquelas que deixaríamos em São Paulo. O mundo perfeito, se não fosse o tempo se esvaindo.

Às 10h da noite, caminhão cheio, todo mundo cansado, não havia mais paciência para planejamento detalhado (que deveria ter sido feito antes do caminhão chegar). Pois acabamos deixando em São Paulo coisas que deveríamos ter trazido (erva mate, alguém aí toma chimarrão em Itupeva?) e trazendo coisas inúteis que poderiam ter sido vendidas (quem vai usar biquiní no inverno do Rio Grande do Sul?).

JAMAIS COMPRE MÓVEIS SOB MEDIDA

É tão preponderante o poder da mídia sobre as nossas decisões, que é quase impossível dizer isso. Não, você não é obrigada a comprar móveis planejados para toda a sua casa. Não, nem para a cozinha. Sim, há outras opções. Não, não necessariamente elas são mais caras. Sim, tem como fazer móveis bons, bonitos e baratos, que possam ser transportados.

Eu vejo com um certo espanto, e isso não é de hoje, a quantidade de móveis planejados que um casal jovem enfia para dentro de um recém comprado apartamento. Quando nos mudamos para o 3º apartamento de Jundiaí, não levamos nenhum armário. Fizemos os armários da cozinha (o mínimo possível), um no quarto (para o Casal Cuore + filhinha) e nos banheiros, pequenos, sob as pias (3). E foi isso. Não fizemos rack, estante, criados mudos, cabeceira de cama, lavanderia completa, nada disso. Vimos os nossos vizinhos gastando o valor de um carro popular entupindo o apartamento de móveis, antes mesmo de entrar (sorry, vizinhos, a gente adora vocês mesmo assim).

Não sei nem por onde começar este tópico, mas um dos argumentos óbvios é que é muito caro, e talvez desnecessário. Como já está estabelecido que compramos mais coisas do que precisamos, pula esta parte.

O gosto da gente evolui com o tempo. Vamos viajar e encontramos uma mesinha fantástica. Ou deixamos de gostar das cozinhas rústicas e começamos a ter um olhar mais industrial. Garimpamos uma cristaleira fantástica num antiquário. O tempo muda a gente. O problema é que, com tanto móvel planejado ocupando a casa, é impossível que esta mudança seja incorporada na nossa casa.

A mesinha linda que você poderia ter comprado no nosso bazar, mas não entra no seu apartamento cheio de móveis planejados
A mesinha linda que você poderia ter comprado no nosso bazar, mas não entra no seu apartamento cheio de móveis planejados

Lembra que qualquer casa vira a nossa casa? Façamos uma ressalva: apenas se você permitir que ela evolua e acompanhe as suas mudanças. Se a sua casa for um show-room, ela não é sua, é da Dellano (ou das Casas Bahia, ou da Florence, ou da Italínea, etc etc etc).

Mas por fim, muitos móveis, e móveis planejados para aquela casa específica, vão te fazer criar raízes quando deveria estar criando asas. Meu pai acabou de me contar que deixou de aceitar uma proposta da J&J para ir morar no Rio, nos anos 80, e um dos contra-argumentos da minha mãe foi “o que fazer com os meu móveis planejados?”. Por que colocar um empecilho desses na sua vida? Por que não ser mais livre, leve, poder ir para onde o vento te manda?

Quer que eu te sussurre algo (que não escutem meus amigos construtores): nem compre uma casa. Essa ideia arcaica de que temos que possuir uma casa serve para enriquecer construtoras e lojas de material de construção e lojas de móveis e para manter você bem cheio de dívidas por anos a fio, sem poder dar aquele pé bem dado na bunda do chefe que te irrita. Detalhe, não sou a única a dizer isso: veja aqui, aqui e aqui.

Estamos aprendendo ainda. Esta com certeza não foi a nossa melhor mudança. Contudo, como também não foi a última, quem sabe na próxima nos planejaremos melhor? Ou teremos menos coisas? Ou nos desapegaremos antes?

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