COMO UNS MARACUJÁS CAÍDOS ME MOSTRARAM O QUE SENTIMOS QUANDO ERRAMOS

Fiz um experimento sociológico com a minha mãe (sim, eu sou uma filha desalmada).

No final de semana, minhas irmãs deram um churrasco para os amigos, umas 10 a 12 pessoas. No domingo, varremos o salão, tiramos o lixo (7 sacolas), lavamos a louça, os espetos (sim, estamos no Rio Grande do Sul e aqui se faz churrasco à moda gaúcha). Lavamos todas as toalhas que foram usadas e deixamos secando. Toda a comida que sobrou foi recolhida pelos seus donos.

Dois dias depois, minha mãe foi ver a obra. Sobre a mesa do salão, maracujás verdes. Foi o suficiente para o início da terceira guerra mundial – quem colheu os maracujás que eu queria maduros?

Ora, quem havia colhido fora a Sara e eu. Eles estavam no chão, provavelmente frutos da chuva que havia abatido a região. Eles não haviam sido colhidos: haviam sido salvos. Sob pena de apodrecerem no chão, foram levados, pois talvez algum destino mais nobre exista para pobres maracujás muito verdes que caíram do pé.

Quando ela chegou em casa (minha mãe), certa de que um dos amigos da minha irmã tinha tido a audácia de colher tão miraculoso fruto do maracujeiro, eu justamente estava vendo a palestra abaixo.

Então, resolvi fazer o experimento: só para observar como ela se sente quando está errada.

Sabe o que eu vi? Ela não sente nada de especial.

Ou melhor, sente que está certa. Ela tem absoluta certeza de que está plenamente certa, apesar de estar plenamente errada.

Só sentimos algo diferente quando NOTAMOS que estamos errados. É somente aí que bate a vergonha, a vontade de voltar atrás, a humildade.

Estar certo, ou provar que o outro está errado, parece ser a grande aventura humana – a se contar a veemência com que se criticam ambos os lados de uma briga na internet. Todo mundo aceita que errar é humano, desde que sejam os outros errando.

Admitir que os outros erram é sinal de benevolência: dar ao outro a possibilidade do erro, não exigir dele a imensa perfeição, continuar amando-o apesar do erro. Reconhecer que não existe senão um monte de pessoas tentando acertar – mas errando enquanto isso – é exercitar a humanidade em nós mesmos.

(Talvez fique um pouco mais complexo tanta benevolência quando estamos falando de erros mais graves, que levam a guerras, que causam mortes, que afundam empresas, que afastam os amigos e a família para sempre.)

Agora, admitir que nós mesmos erramos. Antes mesmo de perceber que estamos errados, levar em si a certeza de que podemos ter escolhido o lado incorreto do assunto.

Qual efeito que esta incerteza teria sobre nós?

Talvez fôssemos menos seguros. Mais medrosos. Talvez não conseguíssemos nos lançar em projetos novos. Talvez fôssemos menos arrojados?

Mas quem sabe, mais flexíveis? Menos arrogantes? Menos exigentes? Mais acolhedores? Menos contundentes? Mais vezes certos?

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Observava uma colega. Enquanto discorria sobre sua área, parecia tão segura de si. Qualquer dúvida do ouvinte era rebatida com uma resposta certeira, positiva e segura.

Já eu, quanto mais o tempo passa, mais dúvidas tenho. Sou incapaz de determinar, mesmo tendo trabalhado anos com formulação, o que acontecerá se mexermos aqui ou ali no alimento. Veja, um alimento é um sistema altamente complexo e interligado de diversos componentes.

Não ter certeza sobre estas mexidas já me colocou em maus lençóis com alguns – principalmente, com os que nunca duvidam de si. Como assim, você tem que acreditar no que você faz! Você tem que acreditar que o produto funciona!

Só consigo ter certeza testando.

Sabe o que descobri testando? Que às vezes, eles estavam certos: o produto realmente funciona. Porém, outras vezes, simplesmente errados. Por mais manipulações nos números que se quisesse fazer, a mexida não trazia efeito nenhum. Não se observava melhora, ou piora – ou seja, tanto fazia a formulação A ou B. Pegue a mais barata, e seja feliz.

Ter tanta certeza de tudo – pensar que somos maduros, que estamos no auge da nossa capacidade, que mais ninguém no mundo vê com tanta clareza como nós – carrega certo perigo, não?

Nessas certezas é que nos afundamos em preconceitos. Nessas certezas escolhemos mal nossos líderes. Nessas certezas educamos nossos filhos como se fôssemos ditadores, acima do bem e do mal.

Eu fico pensando aqui em cada decisão que tomei, com quanta certeza fui em frente. Quando decidi abandonar o mestrado no meio, para voltar às engrenagens corporativas às quais havia me apegado tão facilmente.

Olhando para trás, mais madura, vi que estava simplesmente errada. E a sensação do erro veio como uma avalanche dentro de mim, me fez ir até a faculdade e pedir desculpas chorando à minha orientadora – que, no processo do meu abandono, também foi prejudicada.

Eu estava errada e não havia mais volta sobre o tempo que passei sentindo que estava certa.

Será que podemos nos libertar destas correntes de certeza que nos fazem marionetes de nós mesmos?

Será que podemos acolher um pouco de incerteza na nossa vida, que afinal de contas é em si a mais pura expressão de que tudo é incerto, nada determinado?

Eu estou fazendo um esforço brutal nesse sentido.

 

Sobre a minha mãe, algum tempo depois contei a versão real da história. Ela me perguntou: por que vocês não me falaram na hora?!

Ah, mãe, é que eu estava fazendo um experimento com fins científicos…

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Um comentário sobre “COMO UNS MARACUJÁS CAÍDOS ME MOSTRARAM O QUE SENTIMOS QUANDO ERRAMOS

    1. Será mesmo? Hoje eu sou mãe, e me vejo errando o tempo todo. Considerar o erro como uma coisa normal na criação dela faz com que eu seja menos impositiva na minha vontade a seu respeito – e, por fim, me faz respeitá-la mais.

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