COMO MANTER A AMAMENTAÇÃO APÓS VOLTAR AO TRABALHO

A Sara nasceu de parto normal e logo foi exposta ao seio. O médico falava “que maravilha a Natureza, que maravilha!”.

Não poderia imaginar que um bebezinho pudesse ter tanta força – lembro de mostrar a uma amiga quão fortemente ela sugava o meu peito, para espanto meu e dela, ainda na maternidade. Parecia que a maravilha iria continuar – mas não foi tão maravilhoso assim quando chegamos em casa.

Não tinha me dado conta que ela não estava abocanhando uma parte grande da auréola – a famosa pega ruim – e meu seio esquerdo, principalmente, começou a doer bastante.

Boquinha pequena, pegando apenas o mamilo = ai que dor!!!
Boquinha pequena, pegando apenas o mamilo = ai que dor!!!

Para amenizar, punha os peitos para fora e deixava eles soltos, cicatrizando, entre uma mamada e outra. Quando tinha sol, saía no terraço e colocava os peitos para receber a luz UV que mata tudo quanto é bactéria. Também fazia um chá preto forte, e usava uma parte para limpar a bundinha dela, e a outra para passar no peito – o chá preto é anti-inflamatório.

Se deu certo? Nunca peguei inflamação, não tive febre, nem vergão. Isso não quer dizer que os primeiros 2 meses foram uma maravilha – porque não foram. Quando a Sara pegava, eu levantava um dos pés de dor. O Fernando até falou que ele ficava tranquilo quando via um dos pés levantando: era sinal de que ela tinha começado a mamar.

Uma hora, o peito se calejou. A gente usa muito sutiã, não expõe o mamilo nunca (até porque o Facebook e o Instagram não permitem, né 😛 ) – é uma pele muito sensível. 2 meses foi o que o meu peito precisou para parar de doer.

A partir daí, foi apenas muita amamentação sob demanda, muito leite e muita água, até a hora de voltar a trabalhar. Tive uma sorte muito grande nessa hora: uma das minhas melhores amigas havia amamentado seu filho mais velho até depois de 1 ano, e tinha uma bombinha elétrica para me vender pela metade do preço.

Mamãe é louca!
Mamãe é louca!

A sorte foi tanto o estímulo a continuar amamentando, quanto a bombinha.

1 semana antes de começar a trabalhar, comecei a tentar tirar leite. Que desespero! Após a mamada, a Sara dormindo, fazia todo aquele ritual de ordenha (higienização da bombinha, do peito, do pote de vidro para armazenar, copo d’água do lado, local tranquilo) – e nada de leite. Acho que as primeiras tiradas consegui no máximo uns 10ml.

Pensei que seria mais uma daquelas coisas que a gente almeja bem alto – mas que só consegue fazer a metade, porque a realidade é bem diferente do sonho.

Passeando em Embu das Artes (SP), pausa para um leitinho :-)
Passeando em Embu das Artes (SP), pausa para um leitinho 🙂

Ligava desesperada para a minha amiga, mas ela só ria e me dizia: acalme-se. Vai dar certo.

O negócio bacana do leite é que ele é produzido por demanda. Naquele ponto, Sara com 5 meses e meio, o corpo já sabia o quanto ela mamava (que era muito: engordava 1kg por mês!), então produzia este tanto.

Foi preciso algumas sessões para que o peito entendesse que havia uma demanda adicional, para formar um pequeno estoque. Também, não precisava tanto desespero: eu precisava formar apenas 1 dia de estoque. Depois deste estoque formado, quando estivesse longe dela, o leite que eu tirava num dia, ela tomava no outro.

Quando voltei efetivamente ao trabalho, tive outra sorte: uma empresa que entendia o que estava acontecendo. Fui falar com o RH (um cara) e ele me deu prontamente a chave do ambulatório para usar quando eu quisesse. Fui falar com o meu chefe (outro cara), e me disse: tire quanto leite quiser, leve o tempo que precisar.

Às vezes, a gente fala que precisa ser mulher ou mãe para entender certos dilemas da maternidade. Eu acho que basta ser humano.

Na volta de uma viagem a trabalho: uma paradinha para o churrasco da mãe e o leite da filha :-)
Na volta de uma viagem a trabalho: uma paradinha para o churrasco da mãe e o leite da filha 🙂

Continuando: na empresa, tive um ambiente muito propício. O ambulatório era acolhedor, seguro, bem mantido, tinha uma maca e uma pequena pia. Ao lado ficava o refeitório, onde eu higienizava a bombinha no micro-ondas, congelava e armazenava o leite até levar para casa, numa bolsinha térmica.

Com isso, consegui manter a amamentação da Sara mais 6 meses após ter retornado ao trabalho. No início, tirava 4 vezes por dia, depois 3 e por fim apenas 2. A bombinha é boa, mas não é tão eficiente quando a boca do bebê. Mesmo assim, quebrou um galhão!

Eu produzia muito leite, principalmente do lado direito (será que é por isso que no início era o esquerdo que mais doía? Até hoje não sei se era no esquerdo que ela fazia mais força). Tirava de 100ml a 120ml em cada sessão – e deixava a bombinha em cada peito uns 10-20min, até que o jato se esgotasse. Com isso, eu garantia que na próxima sessão haveria muito leite ainda. A bombinha elétrica que eu usei era da Medela, essa aqui.

Profissionalmente, o que a amamentação me limitou foram aqueles minutos que fiquei isolada e o fato de que não viajei no primeiro ano sem ela. O tempo que eu tirava leite, aproveitava para ler relatórios ou artigos que estavam nas minhas pendências – acabou sendo um dos momentos mais aguardados e produtivos do dia.

De resto, fiz de tudo: dei treinamento, visitei clientes, fiz reuniões, passei por auditorias. Até hoje sou grata à empresa onde estava por ter este respeito à minha condição e decisão de amamentar.

Se for pensar, nem precisaria, não é?

O direito à amamentação é previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente e deveria ser um dos nossos bens mais protegidos, tamanhos e tão diversos os benefícios que ela traz à sociedade (incluindo aí o tamanho do nosso cérebro).

Entretanto, o que escuto o tempo todo é diferente disso.

Usando o espaço Família do Shopping Patio Higienópolis
Usando o espaço Família do Shopping Patio Higienópolis

Como a lei não ampara a mãe e o filho na totalidade, dando apenas 4 meses de licença, escuto mães introduzindo alimentos sólidos já aos 3 meses (!). Gente que não consegue amamentar após o retorno ao trabalho pois não há onde ordenhar. Ausência de bombinhas elétricas eficientes no mercado nacional.

Por isso, se você é uma mãe que trabalha – e pretende continuar trabalhando após ter filhos – olhe ao redor na sua empresa. Questione-se: aqui há acolhimento às demandas da mãe lactante? Esta é a empresa certa para eu seguir com o meu plano?

Se você tem posição de liderança, use sua influência para implantar o acolhimento e estimule as mães ao seu redor.

Não importa se você é ou não é mãe – ou se nunca será. Um mundo mais humano depende de bebês que amamentam.

Faça a sua parte.

 

ps.: Aqui tem uma série de mitos sobre amamentação. E aqui uma série de dicas para quem quer amenizar o cansaço dos primeiros meses e para mães lactantes que estão planejando o retorno ao trabalho.

 

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6 comentários sobre “COMO MANTER A AMAMENTAÇÃO APÓS VOLTAR AO TRABALHO

  1. Muito bacana seu texto. Por não estar trabalhando neste momento não tinha me dado conta de toda as questões que envolvem a amamentação no retorno ao trabalho. Tens um espaço e acolhimento incrívelno seu trabalho e que infelizmente ainda não é tão comum. Parabéns pelo texto, pela persistência no processo da amamentação e pelo enfoque dado ao texo.

    1. Obrigada, Aline! No momento não estou mais trabalhando nesta empresa, e me pergunto se em outras empresas que trabalhei teria o mesmo acolhimento.
      O que eu vejo, contudo, é que as mulheres em posição de liderança, que poderiam fazer bem mais pela “classe”, não se posicionam muito aqui.
      Medo? Comodismo?
      Não sei.
      Mas se já somos mais de 50% da população brasileira, direitos específicos para a mulher estão na ordem do dia.

      1. Concordo com você. Fiz meu desligamento da última empresa em que trabalhei no final da licença maternidade e, na época, não sei exatmente qual seria o meu comportamento se tivesse que conciliar a amamentação e trabalho. Acho que teria algumas dificuldades. Ao longo da carreira vi muitas colegas abandonando a amamentação em função da rotina de trabalho sem nem ao menos questionar alguma possibilidades para mante-las. São escolhas, medos e talvez comodismo também

        1. é, tem isso. a mãe definitivamente tem que querer e ter muita força de vontade para manter a amamentação (é claro, depois de 60 dias, se acostuma, porque vira hábito).
          mas tem também a empresa que não é acolhedora. esse é o meu ponto: tem muita mulher em posição de liderança que esquece que é mulher nessas horas. poderia batalhar internamente por si e pelas outras mães, mas prefere assumir a posição do status quo e deixar as coisas como estão.
          se você pensar bem, não estão sendo líderes de nada nessa hora, né?

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