A SÍNDROME DO FILHO DO PAI BRAVO – ou, GENTE QUE SE FAZ DE VÍTIMA PARA PASSAR BEM

Você conhece gente assim.

Fala sempre num tom de voz agradável. Uma capacidade imensa de articular-se entre um grupo e fazer seus desejos realizarem-se. Trabalha muito, apresentações perfeitas, incansável. Nunca diz não a um projeto, sempre disponível para absorver um pouco mais de trabalho.

Uma pessoa perfeita.

Até que começam a chegar notícias das articulações. Dos jogos. Até que se percebe que assumir responsabilidades por erros não é seu forte – e apontar os erros dos outros, sim.

Numa reunião, nunca assume posições conflitantes. Sempre concorda. Calada, assiste enquanto ideias contrárias às suas são apresentadas por seus superiores. Não as aceita, porém não as combate.

Um guitarrista bonzinho
Um guitarrista bonzinho

As ideias de seus colegas são duramente criticadas – não para eles, apenas para as lideranças. Evitando o confronto direto, dá aos pares a impressão de que é parte deles – até que suas críticas, suas manipulações, suas articulações, seus jogos chegam aos ouvidos daqueles.

Você é chamado a uma sala reservada apenas para ouvir um alerta sobre outra pessoa, com mal comportamento. Quando confrontada sobre a fofoca (“absurdo! não faço fofoca…”), reforça com quão boa intenção age.

Quando confrontada, a pessoa tem uma saída que a coloca longe da raiz do problema. Manipuladora, distorce a realidade de forma a torcer a pergunta e apontá-la ao questionador.

Quando confrontada, fala de mágoa, de integridade, do seu histórico profissional, do seu histórico de dedicação a você. Todos atingidos pela confrontação.

Terminada a conversa, você normalmente sai pensando que a culpa era sua. Algumas horas depois, se pega pensando o que realmente aconteceu ali.

Excelente no jogo político, muito agradável e sempre concordando com seu superior, tende a ser promovida.

Se chega a líder, os liderados se sentem desprotegidos. Não há segurança – sabem que um dia a maré irá se virar contra eles. Num problema, serão colocados na linha de frente, prontos para o ataque do cliente, da outra área, do superior. Se líder, o sucesso é seu, o insucesso é da equipe.

Para mim, sofrem da síndrome de Filho do Pai Bravo1.

Em casa, não puderam levantar a voz. Sentaram-se à mesa empertigadas e comeram até o último grão de feijão em seu prato. O quarto sempre arrumado, nunca se rebelaram. Nem sabem o que é Doors, Janis ou Mutantes.

Um Pai Bravo impôs sua visão, vontade, voz, violência. Não permitiu expressão pessoal. Não conversou, apenas discursou. Restou à criança, adolescente, escutar, aquietar-se, moldar-se.

Satisfazer àquele Pai Bravo significava ser uma pessoa boa, educada, tirar boas notas. Ir à Igreja com frequência. Apenas escutar música decente. Decorar o quarto pelo catálogo conservador. Vestir-se com modéstia e ficar em casa nos finais de semana, jogando Jogo da Vida, enquanto os colegas mais arrojados enfurnavam-se em festinhas endiabradas.

Satisfazer àquele Pai Bravo significava manter suas opiniões bem para sim, fechadas e lacradas, não se permitir nem ao menos pensar nelas.

A pergunta que me define sua formação é “o que os outros irão pensar?”.

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Bar do Hostel Pariwana, Cuzco, Peru. Não é lugar para filhos bonzinhos.

Não me surpreende que sejam tão boas nos jogos de manipulação.

Conviver com este personagem, devo confessar, não é fácil. Sabe-se lá porque motivos, mas parece que na minha vida sempre aparecem estas figuras, e eu levo um certo tempo a perceber que há duas caras na minha frente: uma agradável sorrindo com jeito bobo, outra que me fuzila arquitetando a minha execução sumária.

Hoje já faço aquela sondagem. Como era seu pai? Vocês conversavam em casa? Alguma vez você brigou com a sua mãe? De que tipo de música gostava na adolescência?

Conforme as respostas, já me vão soando alertas laranjas, vermelhos, roxos. Como se diz em espanhol, ojo.

Procurando entender essa turma do Pai Bravo, encontrei um artigo que propõe formas de lidar com a rica pessoa. O autor diz que o problema não é necessariamente um Pai Bravo – mas uma atitude constante, insistente de levar a criança a ser boa.

Criança “boa” não briga, não berra, não esbraveja, não mente, não reclama – mas também não se expressa.

Rebele-se - ou permita que seu filho se rebele
Rebele-se – ou permita que seu filho se rebele

O Al Siebert, do Resiliency Center (Centro de Resiliência, capacidade fundamental para respirar e ter paciência com a persona), dá algumas rotas de atuação:

  1. Já que o confronto bate em uma cortina de fumaça, aceitar a situação como ela é. Brincar de faz de conta com o tipo.
  2. Outra forma é encarar como uma situação de aprendizado e aprender a não se deixar vitimizar pelos jogos do outro. Escolher uma reação de aprendizado/superação ao invés de uma de vítima/culpa. Não entrar no jogo.
  3. Parar de imaginar que ela irá mudar. Ela não é capaz de se colocar no lugar dos outros. Apenas falar como ela te faz sentir a cada momento. Não queira mudá-la. Ela não irá.
  4. Ou então, parar de falar. Demonstrar com ações as consequências do seu comportamento.

Quando a persona demonstrar sinais de melhora – parabenize rapidamente. O feedback é essencial para promover a mudança.

Essa situação toda, é claro, me faz pensar sobre a Sara e as escolhas que fazemos todos os dias sobre como reagir a ela. Mas isso é assunto para um outro post.

No momento, estou usando a tática 2, numa situação que me está sendo muito elucidativa.

É impressionante o poder que se ganha quando se aprende a não se deixar levar pela vitimização do outro. Nestes últimos dias, estou aprendendo mais do que nos 15 anos anteriores – apenas por ter escolhido uma posição diferente.

Engraçado, não é?

Eu já tinha lido que a paz interna é uma escolha. Mas isso nunca foi tão real e sólido para mim quanto agora.

Ter paz também é escolher não deixar outros mexerem no arranjo que você está fazendo dentro de si.

 

  1. Onde lê-se Filho, leia-se Filho/Filha. Onde lê-se Pai, leia-se Pai/Mãe. Não importa o gênero.
  2. Outra fonte valiosa sobre táticas de como contornar situações com pessoas do gênero é o Out of the Fog. Dá uma olhada nesta técnica aqui.

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