CARA A CARA COM UM BUDA GIGANTE NA CHINA!

Acordamos no dia seguinte para um céu nublado. Vistas de dentro do hotel, as pessoas vestiam casacos e calças na rua, e pensamos que teríamos que caprichar no agasalho. Afinal, já era outono, uma hora o inverno iria mostrar suas garras de dragão.

Não em Chengdu, dear. Em Chengdu, e em todas as cidades chinesas por que passamos, casacos não são usados para se proteger do frio. Eles servem para se proteger do calor. Foi só colocar o pé para fora e ver que a temperatura continuava amena, nos seus 24-26°C.

Um trem confortável nos levou até Leshan. No passado, as pessoas iam a Leshan e dormiam por lá para poderem ver o Buda, porém agora, com o trem bala entre as duas cidades, não é preciso mais fazer isso. Em 1h estávamos na próxima estação.

No caminho, a paisagem radicalmente diferente do que havíamos visto até então: plantações, pequenas hortas, muitas árvores. Sichuan, o estado cuja capital é Chengdu, é um celeiro chinês, produzindo todo o tipo de alimento. Mesmo assim, entre 1958 e 1961, não escapou da Grande Fome que matou mais de 30 milhões de chineses – culpa das desastrosas medidas econômicas do recém instalado regime comunista e da mente megalomaníaca e incapaz de receber críticas de Mao.

Um aviso pungente para os líderes do nosso tempo, que parece que, à medida que sobem, passam a pensar que a sua forma de ver o mundo é a certa – todo o resto deve apenas concordar.

Da estação em Leshan, à direita se pega um ônibus que te deixa (após um razoável passeio pela cidade) na entrada do Parque.

Você pensa: ah, tem um Buda gigante na beira de um encontro de três rios, numa cidade do interior da China. Aí, a pessoa aqui pensa: cidadezinha.

Tonta.

Leshan, a “cidadezinha” em Sichuan, na China

Será que existe ainda alguma cidadezinha na China? Talvez escondida nas planícies tibetanas?

Leshan é grande, organizada, limpa (pelo menos vista do ônibus). Cruzamos a cidade num ônibus urbano que tinha wifi – fico imaginando que, quando quiser realmente dar acesso à internet à população, o governo fará algo gigantesco. Tipo, cobrir a China com a maior e mais rápida rede wifi do mundo.

Só para dar na cara dos pobres capitalistas.

E, claro, como toda atração chinesa, você não vai ver apenas o Buda. O maior Buda do mundo não pode estar sozinho num parque minúsculo, no qual você leva apenas meia-hora e já está saindo.

Atrações chinesas são gigantescas, sempre. Mantenha isso gravado na mente. Qualquer guia que fala para você “no dia 5, você vê o Buda de Leshan e o monte Emei”, está simplesmente mentindo na sua cara – ou tirando um sarrinho do turista incauto que você é antes de andar pela China.

Então chegamos ao parque para descobrir que, sim, iríamos ver o Buda. Mas havia milhares de recantos, lagos, pagodes, salas de leitura, cavernas e o escambau circundado o bonito.

peixe vermelho coreto chinês
Algumas coisas bem bacanas, até!

A grande atração, contudo, é o Buda. As demais são pequenos brincos na sua grande orelha – mesmo assim, demos uma razoável percorrida pelo parque. A fila era tão imensa para ver o Buda que o Fernando sugeriu que estava bom vê-lo de cima.

Ah, mas eu não vim lá do Brasil até a China para ver um Buda gigante de cima. Quero ver tudo, até lá embaixo.

maior buda de pedra do mundo
Quero ver atéééé bem lá embaixo!

Eu, e todos os chineses de plantão – então, quando entramos na fila, a previsão era de 1,5h para chegar aos seus pés. Uma hora e meia esperando, em pé, numa fila que se mexia a cada meia hora. É, realmente, meio desesperador e claustrofóbico, mas hein. Estamos na China há cerca de 20 dias, pouca coisa nos assusta mais.

A fila – de 1,5 horas – para ver o Buda de Leshan. Aguenta!

À medida que a fila anda, somos levados à lateral do penhasco, por onde desce uma escadinha escavada no arenito, e que permite ver o Buda de novos ângulos. É de tirar o fôlego – e de entender porque a fila anda tão devagar. Irresistível não parar para tirar umas fotos ao lado do bonito, conforme se desce.

fila penhasco bda leshan
A fila que ladeia o penhasco

(Um parênteses: cuidado com o olho. Lembra que eles não gostam de se amorenar? Então pensa numa aglomeração para ver o MAIOR BUDA DE PEDRA DO MUNDO em que a galera acha lindo se cobrir com uma sombrinha.

É, não dá muito certo.)

Dá para ter ideia da dimensão? Chinesa bacaninha dado noção de tamanho aos leitores do Cuore Curioso

Na beira do rio, barcos estacionam para que os turistas tirem a famosa foto-troféu em frente ao grande Buda. Achamos este passeio dispensável, mas deve ser bacana num dia quente de verão, para não ter que suportar as hordas na fila.

Um barco – e um chapéu – para o ver Budão de pertinho

Aos pés do Buda, a multidão se dissipa. Parece mais um reflexo do efeito “fotografia chinesa”: o povo bate uma foto e já vai saindo – então não sobra muita gente parada por ali. Mesmo assim, é um lugar de oração, um incensário espera a sua prece e um monge a sua doação.

Religiões são todas iguais: me mostra uma que não quer dinheiro.

inscrições budistas buda leshan china
Começando a descer para ver o Buda de Leshan

A Sara tem adorado rezar para estes Budas, desde que fomos ao Templo Yonghe – não passa por um templo ou pagoda sem juntar as mãos ao rosto e se curvar algumas vezes, como ela vê o pessoal fazer ao redor. Para o grande Buda de Leshan, faz também a sua oração, pedindo paz e tranquilidade para esta viagem.

buda leshan
Buda de Leshan, em toda a sua imponência!

Este Buda começou a ser construído entre 713, pelo monge Haitong, convencido de que somente um Buda gigantesco poderia acalmar as águas da confluência dos rios Minjiang, Dadu e Qingyi, famosas por afundar navios e matar navegantes por ali. A construção levou 90 anos e, por fim, parece que as águas se acalmaram. Fica a dúvida se por conta do Buda ou das pedras retiradas do rio para construí-lo (o que importa? Em ambos os casos, foi por conta do Buda).

buda leshan
Tá sentindo que o negócio é grande, não é?

O Buda de Leshan é também a maior estátua pré-moderna do mundo.

pé do buda leshan
O maior dedo do pé do mundo 😛

É, sem dúvida, uma maravilha da tecnologia chinesa antiga. Em certo lugar li, e concordo, que a impressão de que os países asiáticos estão se desenvolvendo agora é, no mínimo, ingênua. Estes foram reinos fortíssimos e muito desenvolvidos, até  sucumbirem pelas agruras de guerras, invasores colonialistas e governos malsucedidos. De fato, são países que apenas voltam à sua condição de grandes potências culturais, econômicas e tecnológicas.

buda leshan detalhe rosto
Só te observando

Faz um calor incrível quando começamos a subir. O parque apresenta trilhas subindo e descendo em todas as direções, mas estamos cansados da fila e do calor, então escolhemos as que nos pareciam mais fáceis. Somos recompensados por um pequeno mato de xaxins, com uma sombra úmida e acolhedora que acalma nossas glândulas sudoríparas.

Ufa! Uma sombra!

Em um dos templos, uma cerimônia budista a todo vapor nos recebe. Caminhamos meio que aleatoriamente por ali, tentando entender este parque que parece querer que você, de fato, se perca.

cerimônia budista monges leshan buda china
Cerimônia budista no Parque do Buda de Leshan

Já são mais de 15h quando saímos. Temos um trem a pegar para voltar a Chengdu em cerca de 1h30, então decidimos seguir direto para a estação, na esperança de comer algo por lá.

Ledo engano número 12.876.544.

A estação de Leshan é nova – e não tem nenhum restaurante, contrariando tudo o que já falei até o momento sobre “a China ser tudo comércio”. Somos salvos por algumas bolachas que sobraram na mala e unas bergamotas/mexericas que a Sara ganha de um menino que havia brincado com ela na fila (não somos os únicos fazendo o bate-e-volta de Chengdu, pelo jeito).

velas acesas cerimônia budista leshan china

Chegamos exaustos em Chengdu, para almoçar/jantar. Deixamos a mochila e vamos direto a um restaurante ali perto – para o que nos pareceu a melhor comida de todos os tempos da nossa vida.

Coisas que a fome faz com você.

 

 

Ainda vem muito post por aí! Passamos pela China, Vietnam, Cambodia e estamos no momento na Tailândia. Conta para mim nos comentários: quando você pensa nestes países, o que lhe vem à mente? Quem sabe você encomenda o próximo post, direto para a sua caixa de entrada do e-mail?

 

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